segunda-feira, 2 de julho de 2012

Paraguai: sem apoio, Partido Colorado pode usar repressão 02/07/2012


Por Maíra Vasconcelos, exclusivo para o Blog

Sem apoio popular e isolado em conflito internacional, o uso da repressão e um governo de linha dura são esperados com o retorno do conservador Partido Colorado ao poder, após ascensão de Federico Franco à presidência do Paraguai.
“Como governar ignorados pela comunidade internacional e sem base de apoio popular? Em algum momento, vão começar a reprimir, como governar sem apoio?”. O questionamento e a análise são da historiadora e socióloga paraguaia, exilada política na Espanha e na França, por dez anos, durante a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), Milda Rivarola.
Hoje, o Paraguai assiste à desfiliação de militantes dos partidos que em conjunto votaram no parlamento pela destituição do ex-presidente Fernando Lugo. E, ainda, a impossibilidade de mostrar nas ruas a adesão da cidadania ao novo governo, que fracassou em uma tentativa de manifestação pró-Franco.
Com medo do que possa acontecer nos próximos meses, e cautelosa ao atender as chamadas telefônicas, Milda Rivarola, contou suas impressões sobre o atual momento político, em entrevista concedida em sua casa, em Assunção.
Segundo Rivarola, a imprensa passou a caluniar e agredir, e as autoridades políticas que estavam com Lugo no poder são criticadas nas ruas.  Também As redes sociais também são agora um espaço de insulto aos denominados “luguistas”.
“Esse processo parece conduzir a um país com menos liberdade civil. Chegamos ao ponto em que não se pode dizer o que pensa, é preciso ter cuidado com as palavras. Estão controlando os celulares, têm pessoas que não atendem mais o telefone. E é um susto acompanhar as redes sociais, é espantoso, inexplicável”, contou Rivarola.
De acordo com a socióloga, aqueles que consideram o processo realizado pelo parlamento como um golpe de Estado, assistem ao desvio da discussão sobre democracia e anti-democracia, revertida em “luguistas” e “não luguistas”.
“Qualquer um que diga que isso foi um golpe de Estado, já é um “luguista” e um bolivariano, pago, claro, com o dinheiro da Venezuela”, afirmou, contundente”. Rivarola disse estar receosa com o futuro político do Paraguai, nas mãos do atual governo.
“Me dá muito medo, eu conheço esse país. Chega um momento em que desata a barbárie, sentem (os políticos) que já são impunes em tudo”, ressaltou.
A não-democracia do Paraguai
Segundo a historiadora, o Paraguai apenas possui os mecanismos e a estrutura para funcionamento da democracia, como, por exemplo, um parlamento, o judiciário e o cumprimento das eleições, “mas a lógica de atuação desses poderes, e a mentalidade dos cidadãos não é democrática. O Paraguai não tem mecanismos democráticos, apenas cumpre formas democráticas.” disse.
Sobre a atuação e poder históricos do Partido Colorado no Paraguai, a socióloga os classificou como uma direita populista, que nasceu a partir das relações com o peronismo argentino, na década de 50, e com o nacionalismo fascista dos anos 30. E o outro partido que seria a oposição ao Colorado, o Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) também utiliza dos mesmos mecanismos políticos para atuar e governar, afirmou Rivarola.
“Pagar os eleitores, a cada tanto distribuir saúde, educação e terra para que depois os votem nas eleições. Assim também fazem os Liberais, com a diferença que eles vão roubar pior, e distribuir menos”.
Paraguai: uma política de caráter animal
As avaliações políticas e sociais de Milda Rivarola mostram um país que funciona baixo à dialética primitiva e predatória do Estado, e antes que seja possível definir os representantes em alinhados a ideologias de esquerda ou de direita, a sociológica afirmou que o Paraguai está estancado em uma fase política retardatária.
“Mais que, direita e esquerda, é uma lógica mais primitiva. Por isso, digo que não há direita e esquerda no Paraguai, a lógica é pré-política”, disse Rivarola.
Obter o controle dos meios de comunicação é uma das estratégias utilizadas pelo poder político paraguaio, e citada por Rivarola como mecanismo de transformação do que é do Estado em proveito político-partidário.
“A lógica é entrar no Estado, controlar os meios de comunicação, transformar parte em ganâncias próprias e a outra parte em benefícios nas eleições futuras. Uma atitude totalmente predadora, como insetos que vem comer tudo”.
Para a socióloga, a atitude da classe política paraguaia é de caçador-predador do Estado, como é o caso da postura inconsequente do parlamento que culminou em um conflito externo, com a suspensão do Paraguai das reuniões do Mercado Comum do Sul (Mercosul), até as eleições presidenciais, em abril de 2013.
“Aquele que mata sem necessidade, e inclusive contra a sustentação da caça. Foi o que fizeram, destroçaram o Paraguai frente à comunidade internacional. A ideia é: vamos comer o animal que passou agora. Aproveitam uma conjuntura para obter benefícios próprios. E se a manada não passa mais, isso será problema de outros”, exemplificou, indignada, Rivarola.

José Alencar não aceitou golpe tramado contra Lula 02/07/2012

Do blog Democracia e Politica





José Alencar não aceitou o golpe da deposição de Lula que a direita lhe propôs

Com informações do jornal "Valor":
 
JOSÉ ALENCAR REPELIU INVESTIDA DA OPOSIÇÃO CONTRA LULA EM 2005

“Numa manhã de 2005, no auge da crise do mensalão, o então vice-presidente, José Alencar, chegou contrariado ao seu gabinete. Ele estava irritado e repetiu algumas vezes que iria combater veementemente se quisessem tirar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do cargo.

Quem conta isso é um amigo de Alencar, que disse ter presenciado a explosão daquele dia. "Ele deu a entender que tinha sido procurado por gente da oposição e também por gente de outros setores e que não aceitaria, que não entraria numa dessa e que combateria qualquer iniciativa de apear o Lula da Presidência", disse ao jornal “Valor” esse interlocutor de Alencar que pediu para não ter seu nome citado. As informações são do jornal “Valor Econômico”

A frase que o então vice-presidente (morto em 2011) usou naquele momento e que ficou na memória do amigo foi: "Tem gente da oposição e também mais gente querendo tirar o Lula". Quem ouviu isso naquela hora ficou com a sensação de que Alencar se referia aos partidos de oposição [da direita] e a pessoas da área empresarial [e da mídia e militar?], lembra o amigo.

O episódio envolvendo Alencar foi relatado na semana que passou  em artigo escrito pelo ex-ministro de Lula e atual governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT). O texto foi veiculado pela agência "Carta Maior" sob o título "Um golpe de novo tipo contra Lugo" [transcrito neste blog ‘democracia&política em 25 jun: http://www.democraciapolitica.blogspot.com.br/2012/06/um-golpe-de-novo-tipo-contra-lugo.html]. Genro fala do que chama de "uma conspiração de direita" que votou na semana passada pelo impeachment do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, e que, segundo o petista, deu novo tipo de golpe de Estado, "pelas vias legais" ]sic].

O governador compara a situação de Lugo com as pressões sofridas por Lula durante a crise do mensalão - o [ainda suposto] esquema de [caixa 2 e] compra de votos de parlamentares, que abalou o primeiro mandato do então presidente. E escreve que, se estivesse isolado, Lula certamente teria sido afastado em meio ao uso político [pela direita ansiosa de voltar ao poder] do [suposto] mensalão.

E prossegue: "Acresce-se que, aqui no Brasil - sei isso por ciência própria, pois me foi contado pelo próprio José Alencar -, o nosso vice-presidente falecido foi procurado pelos golpistas "por dentro da lei" e lhes rejeitou duramente."

FONTE: informações do jornal “Valor Econômico” transcritas no blog “Os amigos do Presidente Lula” (http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com.br/2012/06/jose-alencar-repeliu-investida-da.html) [Título, imagem do Google e trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’].

Europa investiga agências de classificação de risco 02/07/2012

Europa investiga agências de classificação de risco Foto: Montagem/247

Autoridade Europeia dos Mercados Financeiros pretende verificar se a Moody's, a Fitch Ratings e a Standard & Poor's dispõem de recursos suficientes em termos de análise para rebaixar as notas do setor bancário

02 de Julho de 2012 às 08:05
247 com agências internacionais - A Autoridade Europeia dos Mercados Financeiros (ESMA) abriu uma investigação sobre os métodos utilizados pelas três grandes agências internacionais da classificação para avaliar os bancos, informou o presidente da instituição, Steven Maijoor, ao jornal Financial Times. As informações são da AFP.
A ESMA começou a examinar o trabalho da Moody's Investors Service, Fitch Ratings e Standard & Poor's. O trabalho deve ser concluído até o fim do ano.
A autoridade reguladora quer verificar se as três agências dispõem de recursos suficientes em termos de análise, depois que o setor bancário foi objeto nos últimos meses de mudanças de nota em suas avaliações.

Peña Nieto vence eleições presidenciais do México, segundo números oficiais 02/06/2012

Pesquisas preliminares divulgadas pelo Instituto Federal Eleitoral (IFE) indicam que Enrique Peña Nieto obteve entre 37,93% e 38,55% dos votos

iG São Paulo | - Atualizada às
O Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México por 71 anos, de 1929 a 2000, voltará ao poder após 12 anos. É o que indicam as pesquisas preliminares divulgadas pelo Instituto Federal Eleitoral (IFE) na madrugada desta segunda-feira (02). De acordo com os números oficiais, o candidato do PRI, Enrique Peña Nieto, obteve entre 37,93% e 38,55% dos votos e será o próximo presidente do país.

O candidato do PRD, Andrés Manuel López Obrador, foi o segundo mais votado, com cerca de 31%, e provavelmente terminará na mesma posição da eleição de 2006, quando foi derrotado por Felipe Calderón. A candidata apoiada pelo atual presidente, Josefina Vásquez Mota, do PAN, teve algo em torno de 24% dos votos segundo a pesquisa boca de urna e terminou em terceiro lugar na eleição.
AP
Enrique Peña Nieto comemora vitória nas urnas durante discurso na Cidade do México
A votação no México se encerrou às 18h, pelo horário local (20h de Brasília) deste domingo. Em todo o território nacional, foram utilizadas 142.894 mesas eleitorais, menos do que as 143.132 inicialmente programadas.
De acordo com os partidos políticos, foram registradas cerca de mil ocorrências, a maioria relacionada à abertura tardia dos centros de votação, além de incidentes como tentativas de compra de voto, propaganda ilegal em favor dos candidatos e confrontos entre militantes.
Advogado, 45 anos, Peña Nieto já foi governador de Estado e foi lançado candidato do tradicional PRI nas eleições deste ano se apresentando como a “nova cara” do partido. Ele já vinha liderando as pesquisas há mais de dois anos, até com certa folga, e não foi muito prejudicado por denúncias de corrupção e de ligação com narcotraficantes que atingiram lideranças do PRI no Estado de Tamaulipas – um dos mais afetados pela guerra às drogas.
Enrique Peña Nieto (D), candidato pelo PRI, é cumprimentado por partidário em Atlacomulco, México. 
No início do ano, Peña Nieto também chegou a admitir que tinha filhos com outras duas mulheres e que, portanto, havia traído sua primeira esposa, mas a confissão também não representou nenhum grande impacto eleitoral. Viúvo em 2007, Peña Nieto se casou novamente em 2010, desta vez com uma atriz popular da televisão mexicana.
Seus principais adversários o criticam pela suposta ligação com grupos empresariais e com a mais poderosa rede de televisão do México, a Televisa.Além do novo presidente, os mexicanos escolheram neste domingo novos representantes para o Congresso e alguns governadores e prefeitos. Os principais temas debatidos durante a campanha foram a crise econômica e o combate às drogas. A violência causada pelo narcotráfico marcou a gestão do atual presidente, Felipe Calderón, e é um dos problemas que mais afligem a população neste momento. São estimados 50 mil mortos em todo o país desde 2006.Na economia, a questão mais em voga é a pobreza extrema, que afeta quase um terço da população mexicana, e a sensação de perda do poder aquisitivo nos últimos anos, apesar das recentes taxas de crescimento terem ficado entre 3% e 4%. 
PRD mantém capital 
Na Cidade do México, capital do país, a esquerda manteve a Prefeitura com a vitória de Miguel Ángel Mancera, do PRD, mesmo partido de López Obrador, que obteve cerca de 60% dos votos, de acordo com as pesquisas de boca de urna divulgadas pelos principais jornais locais. Em segundo lugar, ficou Beatriz Paredes, do PRI, com cerca de 25% dos votos.
A candidata do PAN, Isabel Miranda de Wallace, com cerca de 14% dos votos, ficou em terceiro lugar, seguida pela candidata do minoritário Partido Nova Aliança (Panal), Rosario Guerra, com 2% dos votos.  
 
Com agências internacionais

A Extraordinária vida do viajante e explorador Richard Francis Burton 02/07/2012

Por Marco St.



Recentemente tivemos publicados no blog um post sobre um comandante inglês anônimo que descrevia o Brasil e os brasileiros no inicio do século XIX de uma forma completamente ignorante,  e ontem um post sobre a expedição do norueguês Amundsen e sua incrível façanha no Polo Sul...

Isso tudo me fez lembrar de uma figura quase lendária, personalidade exuberante e aventureiro extraordinário, (sem duvida, o maior de todos), o capitão inglês Sir Richard Francis Burton, o homem, que pode-se dizer, forjou o século XX ainda no XIX. Uma espécie de "google" de carne e osso, uma inteligência assombrosa, que em determinada época de sua vida, veio morar bem perto da Praça da Sé, na modorrenta, pequena e provinciana São Paulo dos anos 60, no século XIX...


"Viver intensamente" é algo que o capitão Burton fazia a cada dia de sua vida. Quando se lê qualquer uma das muitas "grandes biografias", (em todos os sentidos), lançadas sobre sua existência, a primeira sensação que fica é de incredulidade ou de como atualmente nossas vidas se tornaram tão prevísiveis e carentes de aventuras: "Não é possível que esse cara fez tudo isso !!"

Pois bem, vamos à um rápido "currículo" dos conhecimentos e aventuras deste viajante global: Burton foi  um escritor, tradutor, linguista, geógrafo, poeta, antropólogo, arqueólogo, sexólogo, orientalista, erudito, espadachim, explorador, agente secreto, diplomata britânico, etc, etc, e muitos etc. Ainda criança, Burton filho de um capitão inglês, por motivos de saúde deixou a Inglaterra e foi morar entre França e Itália. Logo cedo aprendeu a falar francês, italiano, dialetos locais, grego, latim e romeno. Posteriormente o português (sua esposa Isabel Arundel também era fluente em português). Burton e Isabel traduziram para o inglês várias obras brasileiras, (especialmente as de José de Alencar), além do que, Burton, antes mesmo de conhecer o Brasil, já tinha traduzido para o idioma de Shakespeare a obra Os Lusíadas, de Camões. Camões era sim, um dos grandes ídolos do inglês, de tanto que o admirava e pelo profundo conhecimento de toda a vida e obra do gigante português. Burton na juventude acabou expulso de Oxford, segundo ele, os seus professores eram todos ingleses medíocres e ignorantes. Continuando sua vida, Burton foi prestar serviço militar na India, lá aprendeu todos os dialetos e linguas do subcontinente que teve oportunidade. Aprendeu também o persa, o árabe e quase todas as suas variações. Ao todo, Burton falava fluentemente 39 linguas e dezenas de dialetos (inclusive o Tupi). Burton ainda tinha a capacidade de se expressar nessas línguas sem praticamente nenhum sotaque, o que ao lado de sua aparência "cigana" , foi de muita valia ao Império Britânico, já que ele podia se misturar com facilidade em qualquer grupo estrangeiro. De tanto estudar o Islamismo, o capitão que era protestante e casado em segredo com uma católica, acabou por se converter, sem assumir publicamente ou sequer à própria esposa, à religião de Maomé, (corrente sufista).  É de Burton, a primeira (e melhor) tradução de As mil e uma Noites diretamente para o inglês, português e outros idiomas, (ele não apenas traduziu, ele compilou as histórias árabes espalhadas em diversos escritos e transmitidas oralmente por contadores de histórias), traduziu também o Kama Sutra, e para vende-lo na Inglaterra vitoriana e escapar da censura, acabou por criar uma sociedade, onde ele vendia a "assinatura" dos capítulos traduzidos.
Além da tradução, o erudito inglês em suas "notas do tradutor" explicava e contextualizava todo o texto original para os leitores ocidentais.
Burton também foi fundamental no entendimento da vida sexual dos povos conquistados pelos britânicos. Sem rodeios ou pudores, o eminente orientalista descrevia as preferências e costumes sexuais dos povos do oriente para a puritana Inglaterra. Um desses relatos sobre um bordel homossexual indiano frequentado por soldados ingleses causou inumeros problemas para o explorador inglês. Foi a primeira vez que esse assunto foi tratado de forma tão precisa e detalhada. (o que era um padrão em seus escritos). Isso acabou levantando suspeitas sobre a própria sexualidade de Burton. O capitão costumava dizer que a melhor forma de se aprender um novo idioma era se deitando com uma mulher nativa. Não se deve duvidar pois quem disse isso foi simplesmente um dos maiores poliglotas de todos os tempos.
Foi esse mesmo capitão inglês que revelou para as pudicas mulheres européias que as indianas faziam sexo não só para procriar mas também para o prazer do orgasmo. E havia manuais para explicar como fazer isso...
Paralelamente a essa profusão de conhecimentos, (Burton estudava, lia e escrevia em 4 grandes mesas que ele tinha em seu escritório, fazia tudo simultâneamente, pode se dizer que ele era um homem "multi-tarefa"). Ele escreveu 43 livros,  além de incontáveis manuscritos. 
O nosso explorador foi um dos primeiros ocidentais não muçulmanos, a participar da peregrinação à Meca (e voltar vivo de lá). Foi o primeiro ocidental e branco a entrar na temida cidade proibida de Harar (e voltar vivo de lá). Foi ele que descobriu junto com seu amigo e depois rival John Speke a nascente do Rio Nilo, no lago Vitória (e voltar vivo de lá).  Todas essas histórias foram relatadas por Burton em livros. Bem como por outros escritores. São todas histórias fascinantes e aventuras inigualáveis.
Não vamos esquecer que naquela época tudo o que Burton tinha eram os relatos orais de viajantes e alguns pouco confiáveis manuscritos sobre esses lugares. Tudo era absolutamente misterioso e perigoso.
Burton ainda esteve em contato com povos canibais na África e com os pigmeus. Foi para os EUA onde foi pesquisar a vida dos Mórmons, comunidade recem criada naquele país e que eram perseguidos pelo governo americano. Posteriormente o capitão inglês foi servir diplomaticamente na Síria, acabou criando uma enorme intriga entre cristãos e muçulmanos e a Rainha Vitória achou por bem mandá-lo para Santos onde seria o consul inglês no Brasil . O casal Burton não se adaptou ao calor a aos mosquitos de Santos e subiram a serra e vieram morar em São Paulo. Isabel logo se tornou amiga da Marquesa de Santos e Burton acabou frequentando habitualmente o Palácio Imperial Brasileiro no Rio de Janeiro. Para não perder o costume, Burton navegou  todo o Rio São Francisco, de Minas Gerais até o mar e ficou impressionado com a riqueza brasileira, segundo ele, com a criação de escolas e universidades o Brasil se tornaria um grande país em pouco tempo...
O casal Burton, quando em São Paulo, gostava de fazer picnics no morro de Nossa Senhora do Ó, onde avistavam toda a beleza do pico do Jaraguá e as várzeas do Rio Tietê... Nos finais de tarde Burton era um assíduo frequentador da biblioteca do Largo São Francisco, onde procurava se informar sobre as descobertas dos primeiros viajantes europeus no Brasil, sua vegetação e as minas de Ouro que poderia encontrar.
Ainda em viagens pelo Brasil, em Santa Catarina, o viajante inglês foi o primeiro a notar, relatar e dar importância aos sambaquis . Durante a Guerra do Paraguai, Burton viajou com o Duque de Caxias para acompanhar as sangrentas batalhas como observador do Império Britânico. Há que se fazer um parenteses aqui, apesar de em muitas vezes Burton estar a serviço do Império, ele pouquíssimas vezes colocou esse fato como prioridade, (a excessão mais famosa foi na deposição do xá persa com a ajuda dos "assassinos", quando Burton conspirou fortemente). O que se nota claramente na vida do inglês é que nem ele gostava do "british way of life" (ele detestava o puritanismo, a politicagem, o pedantismo e a arrogância de seus colegas e achava as mulheres inglesas feias, duras e péssimas na cama), bem como a nobreza britânica achava Burton um sujeito "pavio curto", pouco britânico, grosseiro e imprevísível. Ele também era viciado em ópio, alcool e haxixe.
O capitão inglês na verdade tirava proveito do Império para investigar todas as culturas que lhe interessavam.
Burton viveu 69 anos. Uma viagem da Inglaterra para a India, por exemplo,  durava 4 meses. O que esse homem fez em 69 anos, trazendo ao mundo ocidental boa parte das maravilhas culturais do oriente é algo realmente impressionante. Indiana Jones, o maior aventureiro criado por Hollywood,  seria um mero escoteiro perto de Burton.
Tentar "resumir" a vida de Sir Richard Burton, como fiz agora, é quase um crime. Na verdade impossível. Uma boa entrada na vida deste viajante inglês pode ser feita pela biografia feita por Edward Rice: Sir Richard Francis Burton. São Paulo: Companhia das Letras. Outra grande pedida, com uma perspectiva mais "caseira",  é a leitura da biografia feita por sua esposa Isabel. (Sensacional a descrição que ela faz de São Paulo, o Brasil e os brasileiros da época, uma visão bem diferente do que estamos acostumados a ler). Isabel desperta amor e ódio em quem acaba por conhecer a história do viajante inglês. Ela, em seu recato religioso, acabou por queimar inúmeras obras "demoníacas"e "pervertidas"  do marido após a sua morte. Foi um crime contra a humanidade, mas, por outro lado, foi ela que sempre esteve ao lado dessa figura extraordinária. Não deve ter sido fácil ser a esposa de Burton.
Ainda na América do Sul, Burton prosseguiu viagem pela Argentina (esteve na Patagônia, mas estranhamente não houve nenhum relato, mesmo quando ele ainda estava vivo e também no Peru.  Sobre o Brasil ele escreveu o livro " The Highlands of Brazil" sobre sua viagem ao interior do país.

domingo, 1 de julho de 2012

Os maoístas também são gente 01/07/2012


30/6/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline blog
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu
Comentário do Coletivo de Tradutores da Vila Vudu: Cá na Vila Vudu, entendemos que nenhum fato interessa. Afinal, de zilhões de trilhões de fatos que acontecem no mundo, só uma ínfima porção chega aos jornais e televisões. Para cada dez milhões de paulistas gente finíssima, só uma meia dúzia assalta passantes ou assalta o erário público ou assalta bancos; são assaltantes de varejo, coisa miúda. 
Os bancos assaltam no atacado, diariamente, universalmente, planetariamente, e assaltam quaquilhões de zilhões de pessoas. E só os assaltantes que assaltam no varejo ganham manchete. Para ensinar que os bancos não roubam, mas assaltantes pé de chinelo, sim, roubam. E que, dado que a propriedade é direito santificado, o roubo seria pecado mortal. Conversa fiada. Nada disso nos interessa. 
Entendemos que é mais justo que o ladrão nos assalte ou nos mate, do que nos pormos nós, brancos, bem nutridos, poliglotas letradíssimos, nós, a recomendar cadeia para crianças e adolescentes analfabetos e com fome, como se isso fosse alguma ‘civilização’, alguma ‘ética’ ou alguma ‘moral & bons costumes’. Que se danem o papa, o governador, a moral & os bons costumes.
Entendemos, radicalmente, que não interessam fatos acontecidos e que menos ainda interessam fatos completamente inventados e sempre construídos-interpretados pela cabeça das elianescantanhedes ou dos jabores & waacks, cujas interpretações e opinionismo tosco tampouco nos interessam. Aliás... por que deveriam nos interessar?!  
O mundo viveu séculos e séculos absolutamente sem jornalismo comercial. E se o mundo não alcançou a felicidade e a justiça e a paz sem jornalismo, não resta dúvida de que o mundo também não alcançou a felicidade e a justiça e a paz, apesar dos trilhões de bilhões de quaquilhões que rolam hoje na indústria da notícia, vale dizer, na indústria & comércio do fato jornalístico. 
Nenhuma indústria & comércio do fato jornalístico é mais potente, economicamente, nem tem tentáculos mais longos, nem fala mais, mais incansavelmente, sem silêncios, sem pausas, que a indústria norte-americana do fato jornalístico. 
Pois, com jornalismo e tudo, os EUA estão quebrados; são odiados em mais da metade do mundo; e estão, hoje, calculando por cima, inventando, promovendo e mantendo CINCO GUERRAS, em todas elas matando gente aos montes, ultimamente, à distância, sem nem sujar a farda & coturnos, ou dronando o mundo por aí, às cegas, sem dó; ou armando militarmente a parte pirada da oposição síria. 
A indústria norte-americana do fato – o chamado jornalismo norte-americano – ajuda a matar, ajuda a vender drones e ensina a repetir ideias feitas sobre ditaduras e ditadores. E, nessa labuta jornalística, a bandidagem jornalística enriquece a bandidagem da indústria da guerra, e se autoenriquece, no processo. 
O jornalismo indústria & comércio é embuste sempre e sempre foi. Mas, feito como é feito no Brasil-2012, pior que embuste, é golpe, no sentido de que os jornais, os jornalistas e o jornalismo atuam como partido político (sem votos) e visam a comandar o poder político, sem passar pelas urnas. 
Se a democracia representativa como a conhecemos hoje já é fraca e pouca, pra promover alguma justiça social, na luta sem fim contra a grana-nua-e-crua, o jornalismo golpista, em democracias precárias, é receita para democracias cada dia mais precárias.
Que importância teria, para alguém, o que pensa (supondo-se que efetivamente pense , e é possível que apenas minta e nem pense o que “declara” histrionicamente, todos os dias, ao Jornal Nacional) o senador Álvaro Dias?! Lembram quando o “líder da oposição” era o Virgílio? Não passava um dia sem que o doido lá estivesse, em rede nacional, na TV Globo, falando “pela oposição”, sempre elogiado pelo ex-FHC e atual NADA. Cadê o Virgílio? Ninguém sabe, ninguém viu. Não foi reeleito. Dançô. Destino igual aguarda o facinoroso Álvaro Dias e, claro, suas “declarações” “jornalísticas” para o Jornal Nacional, todos os dias. 
O jornalismo como o conhecemos no Brasil faz (MUITO) mais mal ao Brasil e aos brasileiros, que o crime organizado. É muito pior que praga de gafanhotos. É pior que a saúva. O jornalismo que é vendido no Brasil a consumidores eleitores PAGANTES está podre. Não há “democratização” possível para ele. Não há “reforma” que converta o que não é (coisa alguma que preste), em algo que seja (qualquer coisa que preste). O jornalismo que se conhece no Brasil deve ser extinto. 
As empresas comerciais jornalísticas brasileiras ativas hoje – o Grupo GAFE, Globo-Abril-FSP-Estadão – devem ser declaradas “organizações criminosas” e proibidas de operar; como, um belo dia, o comércio de escravos foi declarado ilegal e proibido no Brasil, os mercadores de gente declarados criminosos. Caso de polícia. 
O direito de empreender, o sacrossanto direito liberal de livre empreendimento – que, no Brasil, no que tange à indústria & comércio do fato, traveste-se de “liberdade de manifestação” ou “liberdade de imprensa” – afinal de contas, também tem limites. Ou não?! Alguém pode vender salsicha podre? Alguém pode vender remédio falso? Claro que não. Por que o William Waack pode(ria) vender o que lhe passa pela cabeça, sem nunca ouvir e sem nunca deixar falar o contraditório?!
Xilindró pros diretores, editores e acionistas da indústria & comércio do fato, no Brasil. Pena de prestação de serviços comunitários, prôs jornalistas empregados que sejam apenas idiotas simples, ou idiotas venais, tristes penas-alugadas. E cana dura, prôs demais jornalistas e colunistas fascistas sinceros. Isso feito, a democracia talvez tenha alguma chance no Brasil.
Por essas e outras, nós, cá na Vila Vudu, não fazemos jornalismo. Cá na Vila Vudu, deixamos nossa atenção flutuar desatenta, distraída, despautada. E, vez ou outra, quando encontrarmos algo que NOS AJUDA, pessoal e diretamente, a entender melhor alguma coisa, nós traduzimos e distribuímos, trabalho voluntário, gratuito, militante. Lê quem queira.
Pesquisa recente mostrou que, em três anos de trabalho diário, mais de três milhões de pessoas em todo o planeta já leram o que distribuímos e vários blogs reproduzem. E nossos números estão aumentando. Centenas de milhares escrevem, agradecendo. Felicidade é isso.
Nesse pique, entendemos que, vez ou outra, um quase-fato e, mesmo, um não-fato ou fato muito distante de nossa “realidade” do dia a dia (ou que se pressuponha distante), interessa mais que qualquer fato jornalístico próximo, noticiado à moda do facinoroso “jornalismo” do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) que desgraça o Brasil. 
Por isso, a coluna abaixo, postada hoje num blog indiano, assinada por comentarista generoso – porque distribui a mancheias, gratuitamente, a quem queira ler, suas opiniões de observador excepcionalmente bem informado, com lado declarado e não jornalista – pareceu-nos mais interessante para o Brasil-2012, que tooooooda a edição do sábado somada a toooooda a edição dominical de toooodos os jornais e revistas que o Grupo GAFE impingiu e impingirá, hoje e amanhã, aos eleitores no Brasil-2012.
O evento aí comentado é um ataque, pela polícia do Estado da Índia, a um grupo de guerrilheiros marxistas maoístas que existe desde os anos 70s, na selva do nordeste da Índia. São tratados como “organização terrorista” vocês sabem por quem – o que não nos interessa e só interessa vocês sabem a quem.
O que nos interessa é que são marxistas maoístas e resistem há 40 anos, nas selvas indianas. Há informação histórica sobre eles em: Maoist Communist Centre of Índia (em inglês), prôs que se interessem por informação histórica semiconfiável. E, ontem, 6ª-feira, na selva do estado de Chhattisgarh, no centro da Índia, esses maoístas indianos foram atacados pelas forças de segurança do Estado indiano. Morreram 19 maoístas indianos. 
O artigo que traduzimos abaixo pergunta uma pergunta tão necessária, quanto impossível no jornalismo que conhecemos: como é possível que, no século 21, uma sociedade capitalista avançada como a Índia, civilização milenar, potência emergente, país dos BRICS, como o Brasil, não seja capaz de dar conta civilizadamente e democraticamente de um grupo de guerrilheiros marxistas maoístas que se meteram na selva há 40 anos e lá se mantêm, vivos, resistentes e maoístas?! 
Nossa resposta é: a culpa, do Oiapoque ao Chuí, passando pelas guerras de Hilária & Obama e pelas selvas do estado indiano de Chhattisgarh, cá como lá, é dos jornais, dos jornalistas e do jornalismo do capital, idêntico em todo o mundo, embora em nenhum lugar do mundo seja tão ruim quanto o jornalismo que desgraça o Brasil-2012. 
O capital é absolutamente incapaz de argumentar e ouvir contra-argumentos. Argumentar e ouvir contra-argumentos exige tempo. E tempo é dinheiro. O capital tem pressa. O capital não é humano nem racional. O capital fala sozinho (como D. Eliane Cantanhede, o Jabor e o senador Álvaro Dias e o Augusto Nunes, Dona Danuza Leão). O capital só entende a língua da ignorância ou da violência impressa ou televisionada, e das armas em geral. O capital emburrece. O capital mata. Quem deixe o capital dizer o que bem entenda e manifestar-se livremente, como se o capital gerasse direitos, como se o capital gerasse o direito de escrever leis, morre. 
E isso, afinal, explica, simultaneamente tudo: a resistência dos maoístas indianos resistentes; a violência policial; a ignorância que o jornalismo existe para construir e distribuir, e constrói e distribui mediante o discurso jornalístico da indústria & comércio do fato; a salafrarice do senador Álvaro Dias; e o ganha-pão sem vergonha dos jornais, dos jornalistas e do jornalismo que desgraça o Brasil-2012 (e que desgraça, aqui, mais do que desgraça na Índia, porque o jornalismo brasileiro é o pior do mundo). 
Aí vai. Lê quem queira.
A Índia independente tem sido coerente na abordagem a milhões de motins que ameaçaram a unidade e a integridade nacionais nos últimos mais de 60 anos [1]. O padrão é mais ou menos o seguinte: ninguém se preocupa com o povo viver alienado, apesar de as causas da alienação não serem mistério e poderem ser atacadas; vez ou outra, o partido governante até explora a alienação popular, para atender seus objetivos eleitorais (Khalistan); com o tempo, as feridas se agravam; quando já estão gravemente infeccionadas, o Estado indiano cauteriza uma ou outra ferida mais infectada, sem anestesia, para que o paciente, se não morrer da cura, encolha-se de medo, guarde para sempre a horrenda memória da brutalidade do Estado, escafeda-se, com sorte, para sempre, e aprenda a lição.
Mas nenhuma ferida, de fato, é tratada, para ser curada e nenhuma se cura. Os estados de Jammu & Kashmir e os estados do nordeste da Índia continuam sob ocupação do exército indiano. Não haverá outro modo para enfrentar a alienação política no século 21?
A Índia se orgulha de ser país diferenciado na comunidade das nações, porque é país moral. Nos fóruns internacionais, a Índia já começa a perder a timidez e começa a assumir posições no campo dos direitos e da segurança humanos – por exemplo, no caso do Sri Lanka e da Síria, no Alto Comissariado da ONU para Refugiados, em Genebra, recentemente. Tem-se manifestado nos debates no Conselho de Segurança da ONU – sobre o Sudão e o Afeganistão. São atitudes que se recomendam, é claro, para país que aspire a ser potência regional. 
Chhattisgarth (em vermelho)
Mas, no que tenha a ver com questões nacionais, a situação é bem outra. O “grande confronto” entre o Estado indiano e os maoístas nas selvas de Chhattisgarh na 6ª-feira, mais uma vez, obriga a ver a tragédia da situação. Já começam a chegar noticias de que as forças de segurança da Índia atacaram vilas isoladas na selva e massacraram civis, na calada da noite de 5ª para 6ª-feira.
Entre os 19 maoístas mortos, há uma jovem de 15 anos – e apenas dois dos 19 mortos foram identificados como guerrilheiros extremistas de esquerda. Nesse caso, quem são os outros 17 mortos?
O ministro do Interior está preocupado com o prêmio de 10 milhões de dólares que os EUA ofereceram pela cabeça de Hafiz Saeed, fundador do grupo paquistanês Lashkar-e-Toiba, acusado de ser o principal responsável pelos ataques de 2008 em Mumbai. Façamos votos de que, quando o ministro resolver esse caso, cuide de informar o que de fato aconteceu. O pessoal dos serviços de segurança declarou que “uns poucos moradores inocentes podem ter morrido no fogo cruzado”. Santo Deus! Quanto é “uns poucos”, em termos de mortos?
O mais chocante é que nenhum político indiano, todos os partidos considerados, nada têm a dizer. Estão ocupados com a eleição do próximo presidente da Índia – ou, então, só pensam nas “reformas”. Quando 19 cidadãos são assassinados pelas forças da ordem em país civilizado, na segunda década do século 21, espera-se alguma comoção no mundo “político”. Na Índia, não? O silêncio dos políticos aponta claramente o terrível enfraquecimento da fibra moral.
Ainda mais repreensível é o ensurdecedor silêncio dos partidos da esquerda indiana que, pelo menos em tese, operam ou deveriam operar no mesmo campo ideológico que os maoístas indianos. OK. Os maoístas são rebeldes desiludidos com a esquerda partidarizada e com a democracia burguesa. Nem por isso se tornaram “de direita”.  A China não os reconhece. OK. É problema da China. Mas... e a esquerda da Índia?
De fato, a presença dos grupos maoístas em partes da Índia onde a esquerda indiana “oficial” sequer existe mostra que eles têm legitimidade e credibilidade conquistada por eles mesmos, em trabalho com as populações locais de um país imenso, que ainda são sensíveis aos ideais igualitários e democratizatórios do comunismo. Liderança mais ilustrada, na esquerda indiana, buscaria o diálogo com aqueles militantes, talvez isolados, talvez desorientados. Bom ponto de partida seria indignar-se ante o assassinato de 19 camaradas, na selva de Chhattisgarh. Que tenham enterro comunista decente

Nota dos tradutores
[1] A Índia recuperou a independência (dos ingleses) em 1947.

MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

A vitória do Bolsa Família 01/07/2012



Coluna Econômica

Se houve um vitorioso na Conferência Rio+20 foram as políticas de transferência de rendas do país e, entre elas, especificamente o Bolsa Família.
A agenda da pobreza acabou indo para o centro do documento final da conferência. E em todo lugar em que se discutia o tema, a experiência brasileira era apontada como a mais bem sucedida, em vários aspectos: efetividade (não gera dependência), os beneficiários trabalham, há o emponderamento das mulheres, melhor frequência escolar e desempenho das crianças.
Hoje em dia, há pelos menos duas delegações internacionais por semana visitando o MDS (Ministério do Desenvolvimento Social), segundo informa a Ministra Tereza Canepllo, para saber mais detalhes da experiência.
Com 9 anos de vida e 13,5 milhões de famílias atendidas, com riqueza de séries históricas, estatísticas e avaliações, o BF conseguiu desmentir várias lendas urbanas:.
Lenda 1 – o BF criará preguiçosos acomodados.
Os levantamentos comprovam que maioria absoluta dos adultos beneficiados trabalha na formalidade e na informalidade.
Lenda 2 – as beneficiárias tratarão de ter mais filhos para receber mais auxílio.
O último censo comprovou redução geral da natalidade no país, mais ainda no nordeste, mais ainda entre os beneficiários do BF.
Lenda 3 – um mero assistencialismo sem desdobramentos.
Nos estudos com gestantes, as que recebem BF frequentam em 50% a mais o pré-natal; as crianças nascem com mais peso e altura; houve redução da mortalidade materna e infantil. Há maior frequência das crianças às escolas.
Agora, através do programa Brasil Carinhoso, se entra no foco do foco, as famílias mais miseráveis com crianças de 0 a 6 anos. No total, 2,7 milhões de crianças.
Em 9 anos, atendendo 13,5 milhões de família, o BF consegue uma avaliação refinada e de segurança para todos os parceiros.
Com Brasil Carinhoso pretende-se chegar a 2,7 milhões de crianças, em famílias pobres com filhos entre 0 e 6 anos de idade.
A grande preocupação da presidente, explica Tereza Campello, é que essas crianças não podem esperar: qualquer impacto da pobreza sobre sua formação, qualquer problema nutricional as afetará por toda a vida
Essas famílias representam 40% dos extremamente pobres do país. Primeiro, se levantará sua renda atual. O Brasil Carinhoso complementará até atingir R$ 70,00 per capita por mês.
Hoje em dia, não há um técnico de renome que tenha ressalvas maiores ao Bolsa Família. As críticas estão concentradas em colunistas sem conhecimento maior de metodologia de políticas sociais, de estatísticas.
No início do governo Lula, havia duas vertentes de discussão sobre políticas sociais. Uma, a do universalismo inconsequente, a do distributivismo sem metodologia – cujo representante maior era Frei Betto e seu Fome Zero. A outra, um modelo metodologicamente sofisticado,, tem como figura central (na parte de focalização) o economista Ricardo Paes de Barros.
Prevaleceu um misto do modelo, com as estatísticas sendo utilizadas para focalizar melhor os benefícios. Foi esse modelo que acabou consagrando universalmente o BF.

As críticas desinformadas - 1

Conhecido por sua militância conservadora, o colunista Merval Pereira (o Globo e CBN) apresentou como contraponto ao Bolsa Familia o que ele considerou uma proposta alternativa de esquerda. “O Fome Zero/Bolsa-Família, do jeito que estava montado pela turma do Frei Betto, era um projeto de reforma estrutural, da estrutura do Estado. Frei Betto queria fazer comissões regionais sem políticos, para distribuição do Bolsa-Família, e a partir daí fazer educação popular”.

As críticas desinformadas - 2

Continua o revolucionário Merval: “ Era um projeto muito mais de esquerda, muito mais voltado para mudanças estruturais da sociedade. O Bolsa-Família hoje é um programa para manter a dominação do governo sobre esse povo necessitado. Patrus transformou-o num instrumento político espetacular, que foi o começo da força do lulismo”. O conceito de educação popular significa fora da rede oficial, levando mensagens populares aos alunos.

As críticas desinformadas – 3

O que Merval descreve, em seu discurso, é modelo similar ao do MST e sua universidade popular. A troco de quê um comentarista claramente conservador de repente se põe a defender modelos revolucionários que levem a “mudanças estruturais na sociedade”? Primeiro, a necessidade de ser negativo em relação a tudo. Segundo, o despreparo para tratar com temas técnicos. Empunha o primeiro argumento que lhe vem à mão, mesmo sendo contra tudo o que defende.

As críticas desinformadas – 4

Quando foi lançado, o Fome Zero nem podia ser tratado como programa. Era um amontoado de iniciativas caóticas cerca de slogans vazios. O objetivo seria mobilizar a sociedade para receber ajuda, sem nenhuma preocupação com logística de distribuição, com levantamentos estatísticos. Não havia a preocupação mínima de integrar o auxílio com educação, meio social. Não gerou sequer um documento expondo qualquer filosofia.

As críticas desinformadas – 5

Todo defeito que Merval vê na BF era constitutivo do tal Fome Zero. E as principais críticas ao Fome Zero vinham justamente dos economistas “focalistas”, aqueles que em geral são mais acatados nos círculos políticos que Merval frequenta. Na época, defendia-se a focalização como maneira de focar os gastos nos mais necessitados, evitando desperdícios. A crítica contrária era a dos universalistas – que queriam políticas sociais para todos.

As críticas desinformadas – 6

O que o BF fez foi incorporar toda a ciência dos indicadores dos focalistas, montar sistemas exemplares de acompanhamento e avaliação, e universalizar o atendimento a todos os miseráveis. É essa visão, amarrada a metodologias de primeiro nível, que a transformou em modelo universal de políticas sociais, perseguido por países africanos, asiáticos, por ONGs europeias e norte-americanas.