Celso Lungaretti
No início dos anos 80, quando trabalhava em revistas de música, tive uma breve amizade com o Raul Seixas.
O que nos aproximou foi termos ambos 1968 como referencial maior de nossas existências.
Músicas tipo "Metamorfose Ambulante", “Tente Outra Vez”, "Cachorro
Urubu" e "Sociedade Alternativa" lavavam minha alma, num momento em que a
velha esquerda rabugenta se reconstruía, passando como um rolo
compressor sobre os sonhos da geração das flores.
De papos sóbrios e etílicos que tive então com o Raulzito, posso dizer
que o lance da sociedade alternativa era, basicamente, o de agruparmos
as pessoas com boa cabeça em comunidades que estivessem, ao mesmo tempo,
dentro do sistema (fisicamente) e fora dele (espiritualmente).
Essas comunidades existiram no Brasil, de 1968 até meados da década
seguinte. Nelas praticávamos um estilo solidário de vida, buscando
reconciliar trabalho e prazer. Procurávamos ter e compartilhar o
necessário, evitando a ganância e o luxo.
Acreditávamos que um homem novo só afloraria com uma prática de vida
nova; quem quisesse mudar o mundo dentro das estruturas podres, acabaria
sendo, isto sim, mudado pelo mundo.
Então, em vez de conquistar o governo para tomar o poder e tentar
implantar uma sociedade mais justa de cima para baixo, nós queríamos
deslocar o eixo para o sentido horizontal: acreditávamos em ir
praticando uma vida não-competitiva em comunidades que se entrelaçariam e
cresceriam aos poucos, até engolirem a sociedade antiga.
As teses e posturas da chamada Nova Esquerda dos anos 60 continuam sendo
uma das melhores tentativas que podemos fazer para sairmos deste inferno pamonha que
o capitalismo globalizado engendrou. Daí o empenho dos conservadores de
direita e de esquerda (eles existem, sim!) em relegá-las ao
esquecimento. 1968 ainda é tabu.
O NÉO-ANARQUISMO
Se, como todo mundo diz, a Sociedade Alternativa proposta pelo Raulzito tinha muito a ver com os livros do bruxo Aleister Crowley (que ele e o Paulo Coelho andaram traduzindo do original), também se inspirava nas barricadas parisienses, nas comunidades hippies e na contracultura, o que poucos apontam.
Ele e eu conversamos muito sobre isso; éramos ambos saudosos dos tempos
em que tentávamos nos tornar homens novos na convivência solidária com
os irmãos de fé, em nossos territórios livres.
A referência ao maio/1968 francês é óbvia, por exemplo, na segunda
estrofe de "Cachorro Urubu": "E todo jornal que eu leio/ me diz que a
gente já era,/ que já não é mais primavera./ Oh, baby, a gente ainda nem
começou."
Os conservadores sempre tentaram reduzir a obra do Raulzito a uma
provocação artística, sem maiores conseqüências políticas e sociais.
Mas, ele não era meramente um gênio de comportamento anárquico, como
tentam retratá-lo, folclorizando-o para torná-lo inofensivo.
Era, isto sim, um homem sintonizado com o néo-anarquismo que esteve em
evidência na Europa e EUA na virada dos anos 60 para os 70. E só não
dizia isso de forma mais explícita em suas canções porque o Brasil era
um estado policial, submetido a uma censura rígida, embora burra.
Este não era, claro, o único aspecto de sua multifacetada personalidade –
talvez nem o principal. Mas é o que mais tem sido omitido pelos que
querem fazer dele apenas um monumento do passado, não um guia para a
ação no hoje e agora.
LIKE A ROLLING STONE
Eu vivi na estrada e em comunidade alternativa, em 1971/72. Foi uma experiência riquíssima, num momento em que eu precisava extravasar as emoções represadas no cárcere e me reconstruir, já que o sonho de uma sociedade de liberdade e justiça social ficara adiado por décadas e eu, esperançoso como qualquer adolescente, não me preparara psicologicamente para suportar a sociedade unidimensional que a contra-revolução erigiu.
Atrapalhava muito, naquela terrível Era Médici, a tensão entre a
liberdade que queríamos vivenciar em recinto fechado e o terror e o medo
que grassavam lá fora.
Vivíamos acuados, os cidadãos comuns nos olhavam com receio ou rancor
por causa de nossas cabeleiras e roupas extravagantes. Enquanto isso, a
economia deslanchava e alguns sentiam-se tentados a ir buscar também o
seu quinhão do milagre brasileiro.
Hoje, quem tem olhos para ver já pode aquilatar o que é a sociedade de
consumo e a posição de país periférico na economia globalizada:
parafraseando Conrad, "o horror, o horror!".
Acostumado aos tempos em que se trabalhava para viver, eu não consigo
aceitar que atualmente as pessoas vivam para trabalhar, mobilizadas por
objetivos profissionais umas 14 horas por dia (expediente, horas extras
que dificilmente são pagas, cursos e mais cursos de atualização
profissional, etc.).
E tudo isso para quê? Para poderem comprar um monte de objetos
supérfluos e quase nunca encontrarem relacionamentos gratificantes no
dia-a-dia, pois já não sabem mais interagir – querem apenas usar umas às
outras.
Então, fico pensando que, em lugar de levarmos vida de cão dentro do
sistema, poderíamos todos estar nos agrupando em casarões da cidade e
sítios no campo, criando pequenos negócios para subsistência, plantando,
levando uma vida simples mas solidária. Reaprendendo a ter no outro um
irmão e não um competidor.
Com as facilidades de comunicação atuais (que fizeram muita falta há
quatro décadas), essas comunidades urbanas e rurais se entrelaçariam,
ajudando umas às outras, trocando o que produzissem, prescindindo dos
bancos, escapando dos impostos e das formas de controle do Estado. Em
suma, praticando criativamente, adaptados aos dias de hoje, os
ensinamentos de Thoreau em A Desobediência Civil.
Seria um ponto de partida. E, conforme os territórios livres fossem
crescendo, poderiam até virar algo mais sério – uma alternativa para
toda a sociedade.
COMO FAZER
Nas comunidades de 1968/72, o que se fazia era reviver a velha democracia grega: reuniões para se decidir os assuntos mais importantes, para nos conhecermos melhor, para sonharmos e brincarmos.
Podia começar num debate acirrado e terminar com todo mundo nu dançando
ao som de "Let the sun shine in" (com inocência, pois não éramos dados
ao sexo grupal).
Enfim, tentávamos existir plenamente como grupo, esforçando-nos para superar o egoísmo e a possessividade.
Enfim, tentávamos existir plenamente como grupo, esforçando-nos para superar o egoísmo e a possessividade.
Havia problemas, claro. Emprestávamos ao outro o que ele estava
precisando mais, numa boa; só que, às vezes, descobríamos na enésima
hora que alguém tinha levado sem pedir aquilo que a gente ia usar. Dava
discussão e os limites tinham de ser depois definidos na reunião
coletiva da nossa comuna.
Também não era fácil administrarmos o jogo das paixões. Minha amizade
com um ótimo companheiro andou estremecida por uns tempos quando a
namorada rompeu com ele e iniciou uma relação comigo. Por mais que
quiséssemos nos colocar acima de sentimentos menores como o ciúme, eles
existiam e nos machucavam.
O importante, entretanto, era essa vontade que todos tínhamos de superar
as limitações de nossa educação pequeno-burguesa e viver de forma
generosa e solidária.
Quando alguém tinha um problema, era de todos. Quando alguém estava
triste, logo um companheiro ia perguntar o motivo. Tudo que podíamos
fazer pelo outro, fazíamos.
Onde erramos? Duas vaciladas fatais implodiram nossa comuna. Uma foi
deixarmos a droga correr solta – LSD e maconha, principalmente, pois o
propósito era abrirmos as portas da percepção, no dizer de
Huxley. Isto, entretanto, trouxe à tona facetas da personalidade
reprimida que o grupo não conseguia administrar. Acabaram ocorrendo
conflitos, separações.
A outra foi recebermos de braços abertos todos os pirados que apareciam,
vendo um amigo em cada pessoa que parecesse estar fora do sistema. Como
sempre, apareceram os aproveitadores, os parasitas, os pequenos
marginais. E a polícia veio atrás.
Mas, as experiências que vivenciamos foram tão intensas que aquele ano
valeu por uns cinco. Foi com imenso pesar que vimos aqueles laços se
romperem, sendo obrigados a voltar, cada um por si, à luta inglória pela
sobrevivência. É uma tortura ser obrigado a correr de novo atrás do
ouro de tolo, quando não se tem mais aquela velha opinião formada sobre tudo...
Com algumas correções de rumo e numa conjuntura menos repressiva, as
comunidades ainda poderão ser viabilizadas. Há que se tentar outra vez.
Mesmo porque, como disse o Raul, "basta ser sincero e desejar profundo/
você será capaz de sacudir o mundo".
O NOVO DESAFIO
A tentativa de irmos engendrando uma alternativa ao sistema dentro do próprio sistema tem muito mais a ver agora do que no tempo do Raul, pois os homens precisarão unir-se para enfrentar a crise das alterações climáticas.
Na segunda metade deste século, o planeta será fustigado por terremotos,
maremotos, furacões, tufões, tsunamis, inundações, fome e seca. As
perdas poderão ser diminuídas se os homens se ajudarem mutuamente, sem o
egoísmo e a competitividade capitalistas; caso contrário, até mesmo o
fim da espécie humana não estará descartado.
O futuro da humanidade não pode ficar à mercê da ganância, sob pena de interesses mesquinhos acabarem destruindo o planeta.
Os homens têm de encontrar formas de organizar-se para a produção em
termos solidários, visando o bem comum e não o lucro. Cooperarem em vez
de competirem.
Mas, isso não pode ser imposto por uma burocracia. Chega de ditadura do
proletariado, estatização compulsória da economia e outras experiências
que tiveram maus resultados!
É uma mudança de cultura que teremos de efetuar voluntariamente, se
quisermos legar aos nossos descendentes algo além de uma Terra arrasada.
Teremos de construir algo novo a partir da cooperação voluntária dos
cidadãos. Mostrar que o bem comum deve prevalecer sobre os interesses
individuais. Convencer os recalcitrantes ou mantê-los fora da nova
sociedade que estivermos criando. Mas, fazer o possível e o impossível
para evitar que ela também descambe para a coerção e a repressão.
E não serão os podres poderes atuais que vão encabeçar essa luta. A
união de que necessitamos deve ser forjada a partir de agora, como uma
rede a ser montada pelas pessoas de boa cabeça, independentemente de
governos e partidos políticos.
Se o enfrentamento da maior ameaça com que os homens já se depararam não
propiciar o surgimento de uma sociedade melhor, nada mais o fará.
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