Do G1
Não se pode questionar a formação médica espanhola, afirma
instituição. Programa 'Mais Médicos' abre vagas para estrangeiros em
áreas críticas.
Rafael Sampaio
Os médicos espanhóis estão aptos a trabalhar no Brasil e o pagamento
mensal de R$ 10 mil previsto no programa "Mais Médicos" é satisfatório,
na avaliação de Fernando Rivas, dirigente responsável pela área de
promoção do emprego da Organização Médica Colegial (OMC), órgão máximo
de representação desses profissionais na Espanha.
O valor proposto pelo governo federal para atrair médicos a localidades no interior e nas periferias das grandes cidades foi criticado por médicos brasileiros. Para Rivas, no entanto, trata-se de uma "boa oferta" .
"Tal como está a situação da Espanha atualmente, onde os salários têm
sido reduzidos entre 20% e 30% nos últimos anos e onde persistem os
cortes [de verbas] na saúde, a oferta de R$ 10 mil mensais, mais
alimentação e alojamento, é uma boa oferta", diz.
A previsão do "Mais Médicos" é que haja, além do salário mensal de R$
10 mil, uma ajuda de custo inicial de R$ 10 mil a R$ 30 mil aos
selecionados para cobrir gastos de instalação no novo local de trabalho.
Rivas também rebate as dúvidas levantadassobre o preparo dos profissionais estrangeiros que virão ao país.
"Creio que não se pode questionar a formação médica espanhola. O
nível de nossos médicos está mais do que testado, e certamente
aprovado", afirma.
Em meio a uma grave crise econômica, a Espanha enfrenta cifras
recordes de desemprego entre médicos, diz o dirigente da OMC. "No mês de
maio, o número de desempregados era de 3.395", informa. A quantidade é
ainda maior se forem incluídos os profissionais que deixaram o país em
busca de trabalho - só em 2012, 2.405 médicos foram trabalhar no
exterior, e em 2011, foram 1.378, ressalta Rivas. "É evidente que há uma
fuga notável de profissionais, e isso parece que não vai mudar nos
próximos anos."
Diferença de idiomas
A diferença de idiomas
também não deve impedir a ida de médicos espanhóis ao Brasil, de acordo
com Rivas. "Mais difícil é o alemão, e temos muitos médicos saindo [da
Espanha] rumo às terras germânicas", afirma. Ele considera que o
português não é uma língua difícil de ser aprendida. "Há anos que
médicos de nosso país migram para Portugal, e nunca tivemos informação
de que a língua portuguesa tenha sido um problema."
Segundo Rivas, não é uma questão de dinheiro, ainda que "seja
evidente que, sem uma oferta atraente, um médico não vá sair da
Espanha". O principal, na opinião dele, é conhecer as condições de
trabalho nos municípios que vão requisitar médicos pelo programa e
assegurar que o profissional espanhol seja tratado do mesmo modo que o
brasileiro, garantindo o exercício da medicina.
É preciso que, "no caso de algum querer ficar [após o fim do
programa], se possam articular os mecanismos de revalidação de diploma
de acordo com o nível de formação que os médicos da Espanha possuem",
diz o dirigente da organização.
Não são a solução
Os médicos espanhós "não são a
solução do problema" da saúde no Brasil, diz Rivas. Ele pondera que o
"Mais Médicos" deve se configurar como um programa global, que inclua
medidas profundas a médio e longo prazo, para que haja melhora real da
saúde brasileira. "Isso não exclui o fato de que o programa deve levar
os médicos com todas as condições de segurança e transparência, para que
os estrangeiros façam a escolha com consciência", ressalta.
O fato de o "Mais Médicos" selecionar profissionais para atuação na
rede de atenção básica é mais um motivo para não duvidar da capacidade
dos espanhóis que vão clinicar no Brasil, na opinião de Rivas. "Não se
deve supor nenhum problema para um médico espanhol trabalhar nestas
condições."
'Mais Médicos'
A previsão do Ministério da Saúde é
que até 18 de setembro todos os profissionais dentro do "Mais Médicos"
estejam atuando no país. O programa permite a vinda de profissionais
estrangeiros e de brasileiros que se formaram no exterior sem a
necessidade de revalidação do diploma.
A medida provisória também institui a abertura de 11.447 vagas em faculdades de medicina até 2017 e, a partir de 2015, aumenta em dois anos a grade curricular das faculdades públicas e particulares de medicina, com formação voltada à atenção básica (1º ano) e setores de urgência e emergência (2º ano).
Neste período, os alunos terão uma autorização temporária para o
exercício da medicina, e ganharão uma bolsa para atender no SUS. Cada um
dos médicos vai receber uma bolsa federal de R$ 10 mil, além de dispor
de uma ajuda de custo inicial que pode variar de R$ 10 mil a R$ 30 mil. O
programa tem investimento de R$ 2,8 bilhões.
Segundo o governo, a prioridade será preencher as vagas do programa
com profissionais brasileiros. Os postos de trabalho remanescentes serão
completados com profissionais estrangeiros ou brasileiros formados no
exterior.
"Não se pode obrigar um médico que quer morar na capital a ir para o
interior. O profissional de saúde tem o direito de trabalhar onde
quiser", afirmou a presidente Dilma Rousseff durante o lançamento, ao
explicar porque optou por chamar profissionais estrangeiros, se
necessário. Segundo ela, a iniciativa "se trata de garantir que todos os
brasileiros tenham acesso a um médico".
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, defendeu que a vinda de profissionais de saúde formados no exterior não pode mais ser um "tabu".
Ele destacou que, na Inglaterra, 37% dos médicos são formados fora, e
que nos EUA são 25%, enquanto no Brasil o índice é de 1,79%.
Regras
Só poderão participar do "Mais Médicos"
estrangeiros que tenham estudado em faculdades de medicina com grade
curricular equivalente à brasileira, proficientes na língua portuguesa,
que tenham recebido de seu país de origem a autorização para livre
exercício da medicina e que sejam de nações onde a proporção de médicos
para cada grupo de mil habitantes é de, pelo menos, 1,8 médicos para
cada mil habitantes.
Isso exclui países como Bolívia, Paraguai e Peru, que estão abaixo.
Espanha, Portugal, Cuba, Argentina e Uruguai são exemplos de países que
superam esse índice.
Todos os profissionais vindos de outros países serão acompanhados por
uma universidade federal. Os municípios inscritos no programa terão de
oferecer moradia e alimentação aos profissionais, além de ter de acessar
recursos do Ministério da Saúde para construção, reforma e ampliação
das unidades básicas.
Os profissionais de outros países e brasileiros formados médicos em
universidades estrangeiras ficarão isentos de realizar o Exame Nacional
de Revalidação de Diplomas Médicos, o Revalida, ao optarem pelo registro
temporário de médicos, que será concedido pelo Conselho Federal de
Medicina (CFM).
No caso dos estrangeiros, será obrigatório que eles participem de um
curso de três semanas, em uma universidade federal que tenha aderido ao
programa, onde serão avaliadas por professores as capacidades técnica e
de comunicação. Sendo aprovado, eles serão inscritos no Conselho
Regional de Medicina do estado em que vão trabalhar.
Prazos
A escolha das vagas será dividida em duas
fases. A primeira contará apenas com médicos brasileiros, e a segunda
com os profissionais estrangeiros e com brasileiros que se formaram no
exterior.
Segundo o governo, em 26 de julho serão publicadas as
vagas existentes nas cidades brasileiras. Até 28 do mesmo mês, os
médicos brasileiros inscritos no programa poderão escolher os
municípios.
Em 1º de agosto será divulgada a relação de profissionais
brasileiros, que terão de homologar a participação e assinar um termo de
compromisso até 3 de agosto. Dois dias depois, as escolhas serão
validadas no Diário Oficial da União e os médicos escolhidos começam a
atuar em 2 de setembro.
As vagas remanescentes serão divulgadas em 6 de agosto. O processo de
escolha nesta segunda etapa vai até 8 do mesmo mês e os resultados
serão publicados em 13 de agosto. O início das atividades está previsto
para 18 de setembro.
Ciclo de atenção básica
A medida provisória
também aumenta a carga horária dos cursos de medicina da rede pública e
privada do país. A partir de janeiro de 2015, será incluído um ciclo de
dois anos na grade curricular voltado para atuação na atenção básica e
nos setores de urgência e emergência.
Esse ciclo de formação será
feito no Sistema Único de Saúde (SUS) e os alunos vão receber uma bolsa
custeada pelo governo federal, além de uma autorização provisória para
exercício da medicina. As instituições de ensino terão de oferecer
acompanhamento e supervisão nas especialidades.
Outra iniciativa é a criação de
11.447 vagas de graduação em medicina até 2017, em 117 municípios. De
acordo com o governo, a expansão desses postos de ensino permitirá
diminuir a carência de médicos em regiões mais carentes.
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