Camila Maciel
Repórter da Agência Brasil
Cerca de 400 famílias moram na área, segundo a associação comunitária. A comunidade foi atingida por dois grandes incêndios nos anos de 2011 e 2012. No primeiro incêndio, 1,2 mil famílias ficaram desabrigadas e duas pessoas morreram e no do ano passado, pelo menos uma morte foi registrada e mais 300 pessoas perderam suas casas.
De acordo com a líder comunitária Alessandra Moja, 29 anos, o muro foi construído após o primeiro incêndio com a justificativa de que seria por medida de segurança. "Existia um prédio do outro lado do muro, que também estava ocupado, e foi esse prédio que pegou fogo. Falaram que era preciso construir, porque iam demolir o prédio", explicou. Hoje, no entanto, ela considera que o muro é um dos principais fatores de insegurança para os moradores. "O Corpo de Bombeiros já deu um laudo [dizendo] que se pegar fogo no começo da comunidade, morre todo mundo queimado".
O trabalho de derrubada começou por volta das 11h30. Com marretadas, os moradores abriram as primeiras passagens. Cerca de meia hora depois, a Polícia Militar chegou ao local com cerca de 20 homens. Segundo os policiais responsáveis pela operação, que não quiseram gravar entrevista, eles receberam um chamado pelo 190 e foram ao local verificar a denúncia. A chegada da PM, que entrou na comunidade com carros em velocidade, provocou apreensão na comunidade.
Para as lideranças da comunidade, a área tem grande interesse do mercado imobiliário, pois está situada em um terreno valorizado da região central. "A gente também tem direito à cidade. Não é porque somos pobres que temos que viver na periferia. Aqui, a gente tem trabalho, escola, creche, posto de saúde. Moro aqui há 18 anos, não são 18 dias", disse Alessandra.
A mesma opinião é compartilhada pela moradora Josefa Flor da Silva, 62 anos, que vive há 12 anos na Favela do Moinho. "O que querem mesmo é tirar a gente daqui. Pobre não pode morar em lugar bom", disse. Apesar de a justificativa apresentada para a construção do muro ter sido a segurança da própria comunidade por causa da demolição, ela acredita que a real motivação era garantir que o terreno do prédio não seria novamente ocupado. "Primeiro fizeram de madeira e depois subiram o muro. Passei por dois incêndios e nada mudou aqui".
Alessandra explica que a proposta de ocupação da área que é isolada pelo muro será apresentada amanhã pela comunidade na primeira reunião do grupo de trabalho (GT) formado pelas famílias da Favela do Moinho e por órgãos da gestão municipal, entre eles a Secretaria de Habitação (Sehab), a subprefeitura da Sé, a Secretaria de Relações Governamentais (SMRG) e a Secretaria de Desenvolvimento Urbano (SMDU).
Segundo o governo municipal, o processo de desocupação da Favela do Moinho teve inicio em 2012, após o primeiro incêndio. Na época, foram cadastradas 810 famílias e, desse total, cerca de 50% recebem auxilio-moradia e aguardam as unidades definitivas. Foram oferecidas moradias definitivas na Ponte dos Remédios, na Lapa, cujas obras estão em andamento.
Ainda não há uma definição sobre a destinação a ser dada para a área, que hoje é ocupada pelas famílias. O terreno, que é 100% cercado por trilhos, é titulado em nome da União. A rede ferroviária atualmente é operada pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e, segundo a prefeitura, não há nenhuma utilização viável para a área que não seja para atividades decorrentes do funcionamento do sistema.
Edição: Fábio Massalli
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