segunda-feira, 3 de junho de 2013

Juan Manuel Santos e a conspiração contra a Venezuela e a Aliança do Pacífico 03/06/2013


1/6/2013, Atilio Borón, Contrainjerencia    
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Henrique Capriles (E) e Juan Manuel Santos em recente visita do primeiro à Colômbia

ATUALIZAÇÃO: 1/6/2013, Telesur (em espanhol)
“Presidente Juan Manuel Santos solicitará ingreso de Colombia a la OTAN” (informação distribuída, por e-mail, por Jacob Blinder)
Atílio Borón
ATÍLIO A. BORÓN - Por mais que se discuta, qualquer acordo econômico é também um compromisso político. O pensamento neoliberal apresenta suas opções políticas (por exemplo, promover um modelo econômico que enriquece os ricos e espolia os pobres) como se fossem resultado de cálculo técnico ou de alguma racionalidade abstrata, quando, na verdade são exatamente o contrário.
Isso vale tanto para os acordos firmados no plano doméstico quanto no plano internacional. Por isso não surpreende a provocação que vem do governo de Juan M. Santos – que agora diz que tudo não passou de “mal entendido” – ao receber o candidato derrotado da direita venezuelana Henrique Capriles. Ao fazê-lo, o presidente colombiano emprestou alguma legitimidade às escandalosas “denúncias” de Capriles – refutadas por sucessivas auditorias que examinaram os resultados das eleições de 14 de abril – e alinhou-se irresponsavelmente com o líder da ala fascista e mais radical e golpista da direita venezuelana.
Nicolás Maduro
Mas... só com essa? Não, porque a estratégia de desgaste em que trabalha o antichavismo não é criação original venezuelana, mas expressão da orientação que continua a ser distribuída de Washington, para conseguir concretizar seu projeto de desconstruir o chavismo e apagá-lo para sempre da face da terra. Por isso a Casa Branca ainda não reconheceu a legalidade e a legitimidade do triunfo de Nicolás Maduro nas eleições presidenciais na Venezuela. A teimosa reação do insólito Prêmio Nobel da Paz não é teimosia pessoal, mas cumprimento meticuloso do projeto para reverter a correlação de forças no hemisfério que, em 2005, já fez naufragar o projeto da ALCA em Mar del Plata.
Componente fundamental desse projeto é o ataque ininterrupto, a tentativa de deslegitimar e de desestabilizar os governos bolivarianos e progressistas da Região. O sonho impossível dos EUA é restabelecer na América Latina a situação que houve antes da Revolução Cubana, quando as ordens da Casa Branca eram obedecidas sem contestação pelos governos da Região.
Esse é o sentido da tão divulgada e propagandeada Aliança do Pacífico, constituída de México, Colômbia, Peru e Chile, que, empurrada por Washington, já organizou nada menos que sete reuniões de cúpula em pouco mais de um ano.
O objetivo desse hiperativismo diplomático [1] é, principalmente, político e, em menor medida, econômico. É político, porque visa a refazer o mapa sociopolítico regional, acabando com os governos dos países da ALBA e inclusive com seus aliados, como os governos de Argentina e Brasil, “cúmplices”, segundo Washington, no processo que derrotou a ALCA. E é objetivo econômico, porque a Aliança do Pacífico é a mais importante peça da contraofensiva imperialista destinada agora, de fato, a tentar conseguir uma “outra” ALCA, sob novo nome, e a potencializar o papel dos “cavalos de Tróia” que Washington tem enviado contra os governos “inimigos”, para boicotar, por dentro, projetos que a Casa Branca rejeita visceralmente, como a  UNASUR, a CELAC e, um pouco menos, o MERCOSUL.
Não surpreende que governos e políticos os mais reacionários da América do Sul – e também os da Europa! – disputem entre si o duvidoso privilégio de ser o primeiro a unir-se à Aliança do Pacífico, concebida e orquestrada pelos EUA para defender seus próprios interesses, servindo-se de seus peões latino-americanos e europeus.
Que sentido teria que países como Espanha, Austrália e Japão, que hoje têm status de observadores, tenham declarado que solicitarão, ainda em 2013, o direito de converter-se em membros plenos da Aliança do Pacífico? Austrália e Japão precisam talvez desse instrumento norte-americano, para vincular-se ao novo centro de gravidade da economia mundial, que está, não distante, mas precisamente em seu entorno? Ou o fazem exclusivamente porque são países submetidos militar, econômica e diplomaticamente à vontade da Casa Branca e, assim, fazem o que são mandados fazer?
Claro está que é movimento engendrado nos EUA, do qual Santos é o principal articulador (não esqueçamos e a última e fundamental reunião da “aliança” aconteceu há poucos dias, 22-23 de maio, em Cali, Colômbia), e que exige de seus protagonistas submissão abjeta aos éditos e prioridades dos EUA.
John Kerry
Para a Casa Branca hoje, nada é mais importante que aproveitar o momentâneo desconcerto provocado pela morte de Hugo Chávez para “pôr ordem” no que o secretário de Estado John Kerry chamou de “quintal dos fundos de Washington”– expressão que, de tão reveladora, deixara de ser usada há muito tempo. E Santos obedeceu e recebeu um político desprestigiado e já derrotado nas urnas, que é apoiado pelo que há de pior na direita latino-americana e europeia – principalmente pelo corrupto Partido Popular de España (PPE), cujo chefe clandestino é José M. Aznar – culpado por haver instigado a prática de crimes que culminaram no assassinato de onze chavistas e de mais de uma centena de feridos, além da destruição de clínicas populares de atendimento médico e prédios públicos na Venezuela.
O objetivo do giro latino-americano de Capriles é desprestigiar a qualquer custo o governo de Maduro, inclusive deteriorando ainda mais as já difíceis relações entre Colômbia e Venezuela. É Washington fazendo ver aos seus estados-clientes que não haverá limites éticos ou escrúpulo de tipo algum, para tentar isolar o governo da Venezuela, caracterizá-lo como “estado bandido”, e enfraquecê-lo, no confronto com Washington.
Para isso se combinarão estratégias de sedução hipócrita – Joe Biden elogiando o Brasil como potência já “emergida”, mas sem dizer que o Brasil é o país mais cercado por bases militares dos EUA, de toda a América Latina – e outras estratégias mais brutais, como as que Biden com certeza comunicou ao presidente Santos na visita que lhe fez.
Dilma Roussef e John Biden em 31/5/2013
E haverá também iniciativas como a da Aliança do Pacífico, que, por causa dos objetivos que tem e da extraordinária mobilização de recursos, será arriscado não levar em conta. Tudo indica que o povo e o governo da Venezuela estão bem conscientes da ameaça que pesa contra eles, que saberão resistir e vencer.
A Venezuela e o povo venezuelano sabem que contarão com a solidariedade militante da maioria dos povos e governos de Nuestra América, os quais, com suas lutas, derrotarão outra vez a velha ideia da velha ALCA, que agora reaparece com outro nome. No nauseabundo contexto internacional que se configura, deve-se destacar o honrado gesto do presidente Rafael Correa, o qual, por seu Chanceler, informou que o Equador não receberia Capriles.

Nota dos tradutores:

[1] Sobre o “hiperativismo diplomático” dos EUA, ver também:

Brasil cada vez maior 03/06/2013

(Ou: Das dificuldades da solidariedade internacional no mundo do capital global)
junho 2013, Renaud Lambert, Le Monde Diplomatique,
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Os EUA ainda vêem a América Latina como seu quintal. O Brasil estará começando a se sentir da mesma forma sobre a América do Sul, onde é o maior e mais rico país?
Renaud Lambert
João Paulo Rodrigues e Rubens Barbosa parecem ter pouco em comum: Rodrigues trabalha pelos sem-terras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desde menino; Barbosa foi embaixador do Brasil em Londres, depois nos EUA, de 1994 a 2004, e hoje trabalha como consultor de negócios. Encontrei Rodrigues num pequeno sobrado em São Paulo; os escritórios comerciais de Barbosa ficam na muito chique Avenida Faria Lima, onde helicópteros sem conta transportam executivos ricos de um a outro heliponto, entre os arranha-céus. Rodrigues acabava de comandar uma sessão de treinamento para ativistas do MST; Barbosa esforçou-se para me dar “alguns momentos”, tomados entre telefonemas de clientes que queriam ouvi-lo sobre um movimento do governo – todos querendo ser ‘o primeiro a saber’ (foi a impressão que tive).
Rubens Barbosa
Por diferentes que sejam, esses dois homens concordam, às vezes, em muito do que dizem. Rodrigues, ao falar dos objetivos políticos do MST – “derrubar o neoliberalismo e construir sistema econômico mais justo” – identifica a integração regional como prioridade. Barbosa sonha com o Brasil que “transforme sua geografia, em realidade política”. Como escreveu em 2000 ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, Barbosa vê a América Latina como “quintal do Brasil, território natural de negócios brasileiros”. [1] E também identifica uma prioridade: “defender nossos próprios interesses” e reforçar o processo da integração regional.
Desde que o Grande Libertador, Simón Bolívar (1783-1830), sonhou com a unidade continental, houve várias tentativas para promover a colaboração entre os países latino-americanos e integrá-los em entidade supranacional, aproximando países diferentes, com vistas a atingir diferentes objetivos: a independência, no século19; a industrialização regional, depois da 2ª Guerra Mundial; o alinhamento neoliberal, nos anos 1990s.
João Paulo Rodrigues
Embora unidos por ambições semelhantes, Rodrigues e Barbosa rejeitariam sempre qualquer aliança política, o que parece fazer sentido. “O traço que define o processo de integração que o Brasil promove hoje” – disse Armando Boito Júnior, cientista político da Universidade de Campinas [2] – “é que o projeto foi lançado e tocado adiante por forças políticas opostas. Há interesses conflitantes, mas, atualmente, as duas agendas são compatíveis ou até convergentes”. [3]
O primeiro ponto em que coincidem é que os dois lados rejeitam a ideia de o Brasil ser satélite dos EUA – embora essa ideia tenha seduzido a elite ao longo dos anos 1990. [4] O presidente Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) aplicou todos os meios e recursos de seus dois mandatos para que o Brasil realizasse o sonho dos EUA: uma grande Área de Livre Comércio das Américas (FTAA (ing.); ALCA (esp., port.), que iria do Alasca à Terra do Fogo.
Mas o empenho neoliberal de Cardoso assustou a franja industrial da burguesia brasileira. A política dos “tucanos” [como são conhecidos no Brasil os políticos do Partido da Social-Democracia Brasileira, PSDB], de abrir o mercado brasileiro sem qualquer restrição, afogou o país num tsunami de produtos importados e levou a uma onda de falências [e consequentes fusões, em que centenas de empresas faliram ou foram vendidas e compradas na bacia das almas, com ganhos estratosféricos para alguns dos envolvidos e correspondente perda para outros, em processo até hoje ainda obscuro].
E a onda de privatizações [5] foi tão avassaladora no Brasil, que levou até a revista Veja, neoliberal, [6] a publicar que “A história do capitalismo conheceu poucas ondas tão intensas de transferências de controle de empresas, como a que se vê hoje, em tão curto período de tempo”. [7]
O setor financeiro prosperou, mas a poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) passou a temer o pior.
Em 2002 a FIESP produziu estudo em que analisou o provável impacto da ALCA sobre a economia brasileira. O estudo confirmou “o que muitos empresários temiam”: que aquele acordo de livre comércio traria “mais riscos que vantagens para a economia brasileira”. [8]
Luiz Ignácio Lula da Silva
Nas eleições presidenciais de 2002, o grande empresariado brasileiro apoiou um ex-metalúrgico, Luiz Inácio Lula da Silva, que cuidou de fazer naufragar as negociações com os EUA, desde o primeiro momento de seu governo. A própria FIESP – que se mantivera em silêncio durante as discussões sobre a ALCA, nem por isso teve papel menos decisivo para fazer naufragar aquele projeto.
Agora, o mesmo projeto de área de livre comércio pode estar tentando reerguer-se, com a Aliança do Pacífico, assinada em 2012 por Chile, Peru, Colômbia e México. Valter Pomar, líder da Articulação de Esquerda, uma das tendências em que se divide o Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro, vê a influência dos EUA por trás dessa aliança: todos os países envolvidos já assinaram acordos bilaterais de livre comércio com os EUA. [9]
FHC
Mas nos jantares em Brasília e na Bolsa de Valores de São Paulo, a crise de 2008 contribuiu para arrefecer a febre neoliberal dos tucanos. Só uns poucos que restam ainda em torno do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e bancos como o HSBC, ainda aprovam a aproximação entre México e os EUA (“os EUA são o sol; o México é um planeta que gira em torno do sol”). Mas o relacionamento já custou ao México queda de 6,7 pontos no PIB, em 2009 – fato que nem o PSDB de Fernando Henrique Cardoso conseguiu não ver.
“Há outros meios para alcançar a integração regional” – disse Rodrigues, do MST. – “Entre elas, a abordagem na qual nós trabalhamos no MST, de promover a ALBA (Aliança Bolivariana pelos Povos de Nossa América), proposta pela Venezuela e à qual o Brasil ainda não aderiu. Por essa via, a integração dá-se pela solidariedade, não pela competição, e visa a alcançar um “socialismo do século 21”. Mas é visão conhecida de poucos no Brasil. Apesar das reclamações de alguns idealistas esquerdistas visionários, para os quais, se o PT não os tivesse “traído”, seria fácil chegar ao socialismo amanhã mesmo, a luta por mudanças sociais radicais encontra poucos defensores no Brasil”.
Na véspera da noite em que conversamos, estudantes chilenos haviam conseguido pôr 600 mil pessoas nas ruas de Santiago. Para Rodrigues, “a última vez que se viu tanta gente na rua, no Brasil, era Carnaval”.  
Por isso, o MST tem de encontrar pontos comuns entre essa abordagem e o modelo de integração que prevalece no Brasil, ao mesmo tempo em que extrai vantagens das contradições dentro do modelo. “E há muitas” – disse Rodrigues, listando os diferentes grupos da aliança de governo: “O governo e seus aliados, alguns setores da indústria, empresas multinacionais, altos funcionários públicos, grande parte da classe trabalhadora, sobretudo pela ação dos grandes sindicatos”. É uma visão moderna do consenso fordista, a serviço de um projeto geopolítico regional.
Samuel Pinheiro Guimarães
O primeiro ingrediente é a busca por autonomia. Samuel Pinheiro Guimarães é ex-secretário-geral do Ministério de Relações Exteriores do Brasil; ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo do presidente Lula da Silva (2003-2010) e um dos mais conhecidos pensadores brasileiros. Por tudo isso, provavelmente, recebeu a missão de redigir o “Plano 2022”, que fixa os objetivos estratégicos que devem já ter sido atingidos quando o Brasil completar 200 anos como país independente.
Aos 74 anos, já é homem que vai direto ao assunto: “Que vantagem França ou Inglaterra poderiam obter, que as movesse a querer integração com, por exemplo, Malta?” – perguntou. – “Nenhuma. A única vantagem, talvez, é que Malta é país soberano e, portanto, vale um voto nas instituições internacionais”. Com outros grandes blocos se formando pelo mundo, o Brasil deve criar sua região “própria”, baseada não na América Latina, porque, aqui, o México e a América Central “votam com Washington”, mas na América do Sul, que se deve converter em “eixo central de nossa estratégia de rejeição a toda subserviência aos interesses dos EUA”.
O anti-imperialismo do mais progressista dos altos funcionários do Estado brasileiro é equivalente ao anti-imperialismo de Pomar. Pinheiro acredita que, independente das convicções políticas dos apoiadores, um movimento baseado nessa retórica anti-EUA pode levar a mudança social: “Todas as tentativas que houve de construir um bloco socialista na América Latina enfrentaram dois obstáculos: o poder da burguesia latino-americana e o poder da Casa Branca. A iniciativa de integração do Brasil não eliminará a influência externa, mas reduzirá seu impacto; e dá maior autonomia à política nacional”.
Nicolás Maduro
A posição firme da União de Nações Sul-americanas (UNASUL) – fundada em 2008 – provavelmente contribuiu para reverter os golpes tentados na Bolívia e no Equador em 2008 e 2010. Quando a oposição venezuelana e os EUA contestaram a validade da eleição de Nicolas Maduro, a UNASUL apoiou o sucessor designado por Hugo Chávez, que fora eleito. “No passado, essas questões caiam no âmbito da Organização dos Estados Americanos – quer dizer, da Casa Branca” – disse Pinheiro Guimarães. Ainda recentemente, o Secretário de Estado John Kerry referiu-se à América Latina como “quintal” dos EUA. [10]
Pomar crê que a única solução contra a interferência dos EUA é enfrentar o segundo obstáculo: a burguesia latino-americana; mas admite que essa luta teve de ser adiada.
Os países sul-americanos são ricos por seus recursos naturais (e estão agora em posição para voltar a controlá-los), mas lutam para diversificar suas economias e construir seus meios de produção. Durante a recente campanha presidencial na Venezuela, Maduro reclamou: “Nosso país não tem uma verdadeira burguesia nacional (...) os setores envolvidos na atividade econômica são altamente dependentes do capital norte-americano”. (O comportamento rentista é a regra). Apelou a todos que possam ajudar a Venezuela a “plantar as fundações de uma economia produtiva” [11] – mensagem dirigida ao “setor privado nacionalista”, mas que Maduro espera que chegue ao Brasil, cujos industriais e empresários são tidos como mais progressistas. [12]
A aliança entre o PT, os grandes sindicatos e os chefes de indústria não se desfez depois da posse de Lula da Silva na presidência; sobreviveu, atualizando a tradição desenvolvimentista do Estado brasileiro. Pelo mundo, ninguém parece saber o que fazer para responder à crise do neoliberalismo, além de aprofundar as mesmas reformas neoliberais. Assim sendo, um programa para desenvolver o mercado interno, mediante o pleno emprego, aumentos de salários, programas sociais e retomada da produção (por mais que desaponte os que viviam da especulação) é opção revolucionária.
Artur Henrique
Muitos ativistas de esquerda percebem isso, mesmo que não se deem por satisfeitos. “Ainda entendo que temos de lutar para chegar ao socialismo” – disse Artur Henrique, ex-presidente da Central Única de Trabalhadores (CUT), federação de sindicatos co-fundadora da nova aliança desenvolvimentista. “Mas não sou dos que acham que o socialismo começará domingo que vem, depois da missa. Não. Quero mudar as coisas, mas vejo bem as condições sob as quais trabalho. No nível regional, tentamos nos afastar do neoliberalismo, mas não estamos em posição de derrotar o capitalismo. Tentamos promover uma versão regional – não uma versão nacional – que considera as necessidades de outros países sul-americanos”.
O comércio entre Brasil e Venezuela aumentou 800% desde que Chávez chegou ao poder em 1999. Quando o metrô de Caracas precisou ser expandido, o consórcio brasileiro Odebrecht entrou no negócio, e o governo brasileiro garantiu financiamento em condições favoráveis. Quando falta comida na Venezuela, recebem reforço de indústrias brasileiras (praticamente toda a carne de galinha que a Venezuela consome é brasileira).
Carlos Cavalcanti
“A América do Sul é nosso mais importante mercado” – disse Carlos Cavalcanti, diretor do Departamento de Infraestrutura da FIESP. – “Ainda podemos competir com a China, e é a região para onde exportamos a maior parte de nossos bens manufaturados”. Tudo isso responde por 83% das exportações do Brasil para países da América Latina, e 5% dos embarques da AL para a China. Apesar de toda a economia mundial estar andando mais devagar, os embarques para países vizinhos saltaram, de $7,5 bilhões em 2002, para mais de $35 bilhões em 2010. Cavalcanti disse que “os países da América do Sul estão adotando políticas alimentadas por rendimentos recentes. Para nós, são mercados em crescimento.”
Anti-imperialismo e enriquecimento jamais foram incompatíveis: em documento de 2012, a FIESP descreve o processo da integração sul-americana como “uma quebra em 500 anos de história” marcada pela “subordinação do interesse nacional do Brasil aos interesses das potências mundiais dominantes”. [13] Mas a infraestrutura é a área na qual as demandas de desenvolvimento industrial regional e a busca de maior autonomia geopolítica também regional mais bem se harmonizam com a expansão do capital brasileiro.
Em outubro de 2012, a UNASUL identificou os recursos naturais como “o eixo dinâmico para a estratégia de integração e unidade dos [seus] países”. Antes, havia usado a mesma lógica como argumento para fazer avançar a IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional da América do Sul) [14]. A IIRSA é uma rede de grandes rodovias, ferrovias e vias de transporte fluvial que cobre todo o subcontinente. Foi proposta em 2000 por Fernando Henrique Cardoso – que via o sistema como parte indispensável do tal grande “livre mercado” das Américas. Mas não conseguiu convencer Chávez: em reunião de chefes de Estado em 2006, Chávez demoliu o projeto, criticando-o por vir carregado de “lógica neocolonial”.
María Emma Mejía
Muitos com quem conversei disseram que as coisas mudaram muito, depois de 2000. Já não se trata de construir uma única economia sul-americana, mas de trabalhar pelo “desenvolvimento interno” e pela “sustentabilidade do ponto de vista ambiental”, tratando a infraestrutura como “uma ferramenta para inclusão social”, segundo María Emma Mejía, Secretária (colombiana) da UNASUL, de maio de 2011 a maio de 2012. [15]
A carência de infraestrutura é grande, na América do Sul. Em tentativa para acalmar os ecologistas, o Vice-Presidente da Bolívia,  Álvaro García Linera assegurou que a exploração dos recursos naturais do país é indispensável para industrializar a Bolívia, mas a falta de capacidade tecnológica ameaça impedir isso. O Peru e a Venezuela precisam de novos portos e novas estradas. 

Álvaro García Linera
A produção de cereais no Brasil cresceu quase 220% entre 1992 e 2012, mas a rede de estradas não melhorou. Em abril passado, a estrada BR-364, que leva até o terminal ferroviário que serve o porto de Santos, ficou paralisada num engarrafamento de 100-km, que provocou atraso de 60 dias nas exportações. “O setor do agronegócio no Brasil seria muito beneficiado com um acesso à costa do Pacífico” – disse Barbosa. – “China é agora nosso maior parceiro comercial”.
A IIRSA, concebida num momento em que o neoliberalismo era cultuado, deveria, originalmente, ser financiada pelos mercados e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O bilionário argentino Eduardo Eurnekian admite que foi um erro: “Não suponho, nem de longe, que alguma empresa privada se interesse por assumir a responsabilidade de desenvolver linhas de transporte internacional”. Nessa ponto, a responsabilidade de ter de completar o trabalho recai sobre “os governos, não sobre o setor privado”. [16]
Por tudo isso, a integração física da América do Sul está sendo sustentada por vários esquemas nacionais de financiamento. O Brasil tem o mais rico banco de desenvolvimento do mundo: O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Em 2010, distribuiu mais de US$100 bilhões em empréstimos, comparados aos US$15 bilhões emprestados pelo BID e aos US$40 bilhões emprestados pelo Banco Mundial. E o BNDES só financia empresas brasileiras, o que é vantagem considerável para Odebrecht, Camargo Corrêa e outras “grandes”, que o governo trabalha para promover.
Essas multinacionais da construção devem ter aplaudido a UNASUL, em novembro de 2011, quando adotou seu primeiro Projeto Prioridade para a Agenda da Integração (API) para construir 1.500 km de gasodutos; 3.490 km de estrutura em vias de transporte fluvial e marítimo; 5.142 km de rodovias; e 9.739 km de ferrovias. O investimento total é de $116 bilhões, para 531 projetos, incluindo mais de $21 bilhões para projetos prioritários.
Os vizinhos do Brasil entusiasmaram-se menos. Em abril passado, na primeira reunião dos Estados Latino-americanos Afetados por Interesses Transnacionais; Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua, República Dominicana, São Vicente e as Granadinas e a Venezuela criticaram o poder econômico de “algumas empresas”, que ameaçam a soberania de “alguns estados”. A terminologia é vaga, mas todos sabiam do que estavam falando.
Raúl Zibechi
O escritor uruguaio Raúl Zibechi compara a abordagem do governo brasileiro, na questão da integração, a uma troca de bastão: o capital do norte, entrega o bastão ao capital do sul. “Os ingleses construíram a primeira estrada de ferro para exportar minérios; os EUA financiaram a estrada Cochabamba-Santa Cruz, como parte do projeto de avançar para o oeste. Agora, o Brasil constrói suas próprias vias de integração”. [17]
Mas para Pinheiro Guimarães, o problema é, sobretudo, geográfico: o Brasil tem metade da área terrestre da América do Sul, metade da população e metade do PIB continental; em 2011, o PIB do Brasil foi cinco vezes maior que o da Argentina, o segundo país mais rico; e 100 vezes o PIB da Bolívia. “E vários países da América do Sul só recentemente introduziram o Imposto de Renda. Eles não têm os recursos indispensáveis para fazer avançar o desenvolvimento, se não forem ajudados. É indispensável ajudá-los”.
E então? Exploração ou solidariedade? A pergunta ecoa por toda a América Latina e também dentro do Brasil. A resposta pode ser: as duas coisas.
Em abril/2013, Pinheiro Guimarães deu um exemplo de solidariedade regional: “Sob o governo Lula, aconteceu uma coisa extraordinária. Um subsídio do Brasil tornou possível começar a construir uma linha de transmissão entre a usina hidrelétrica de Itaipu e Assunção”, [18] pondo fim aos “apagões” de energia na capital do Paraguai.
Empresários da FIESP extraíram daí outras conclusões: “Setores que empregam muita mão de obra no Brasil, como o setor têxtil e a indústria do vestuário, melhorariam suas condições de competitividade face aos concorrentes asiáticos, pelo mercado interno brasileiro, se pudessem exportar a operação de produção para o Paraguai”, onde “o custo da mão de obra é cerca de 35% menor”. [19]

Notas de rodapé
[1]  21/1/2000, Carta ao presidente Fernando Henrique Cardoso (arquivos pessoais de Rubens Barbosa).
[2]  O prof. Armando Boito Jr. é um dos principais propagandistas do Partido Comunista Brasileiro, PCB (em ação, por exemplo, em “Foi o PCB que colocou o povo brasileiro na era moderna...”).   [NTs].
[3]  Essa afirmação, no Brasil, hoje, detonaria protesto furioso, menos pelos intelectuais e cientistas políticos dos dois lados, mas, muito mais, pelos eleitores dos dois governos aí referidos (de FHC, até 2001, e Lula-Dilma, de 2002 até hoje). A impressão que se tem, dentro do Brasil, é que os eleitores sabem mais e melhor que os mestres sociólogos e cientistas políticos e filósofos e outros, da Unicamp e da USP [NTs].
[4]  Essa ideia seduz a elite brasileira, de fato, pelo menos, desde 1952, quando o general Golbery da Costa e Silva escreveu, numa monografia (esgotada e hoje inencontrável) para uso da Escola Superior de Guerra o mesmo que, em 1967 repetiu em seu Geopolítica e Poder: que o Brasil só teria futuro se se desenvolvesse “ancorado aos países desenvolvidos” (no pós-guerra, significava, claro, “ancorar o Brasil” aos EUA). É a mesma ideia-projeto que está por trás do golpe militar de 1964 – do qual o general Golbery foi um dos principais “teóricos”, que levou o Brasil a quase meio século de ditadura militar, da qual ainda subsiste hoje muito “entulho autoritário” [NTs].
[5]  O processo de privatizações no Brasil, durante os governos neoliberais do PSDB é objeto de pelo menos um livro importante, de um jornalista investigativo, Amaury Ribeiro Jr., que reúne e oferece vasta documentação, A privataria tucana  que pode ser baixado em .pdf. Sobre o livro, há bom guia de leitura na Wikipédia. [NTs].
[6]  A revista Forbes, mês passado (27/6/2013), fez, da revista Veja, retrato bem menos condescendente em: “Veja é a revista mais odiada do Brasil”. 
[7]  Citado em New Left Review, n. 16, Londres, jul.-ago. 2002, em ROCHA, Geisa Maria, Neo-dependency in Brasil, em  inglês; e em espanhol em: La Neo-dependencia en Brasil. [NT]. 
[8]  “Estudo da Fiesp mostra que ALCA é mais risco que oportunidade”, Valor Econômico, São Paulo, 26/7/2002.
[9] Sobre o mesmo assunto, ver: 6/1/2013, Atilio Borón, Contrainjerencia/ redecastorphoto em: “Juan Manuel Santos e a conspiração contra a Venezuela e a Aliança do Pacífico”  [NTs]

[10]
“US protests against Bolivia’s decision to expel USAID”, BBC News, Londres, 1/5/2013.

[11]
“Maduro no volante”, Folha de S. Paulo, 7/4/2013.
 
[12]  Talvez haja outras exceções, mas deve-se registrar aqui, por obrigatória, a exceção dos empresários da indústria comércio da imprensa-empresa brasileira, os quais, esses, são os mais conservadores e reacionários do sistema solar, ativos desde antes do golpe militar de 1964 e ativos até hoje, sempre contra a democracia brasileira. [NTs]

[13]
  “8 Eixos de Integração da Infraestrutura da América do Sul”, Fiesp, São Paulo, 24/4/2012.
[14] Plano de trabalho do Conselho Sulamericano para Infraestrutura e Planejamento (Cosiplan) para 2012.
[15] “8 Eixos de Integração da Infraestrutura da América do Sul”, op cit. [13]
[16] “Integração depende de governos, afirma bilionário”, Valor Econômico, 19, 20 e 21/4/2013.
[17] ZIBECHI, Raúl. Brasil Potencia, 2012, Bogotá: Ed. Desde Abajo.
[18] 1/4/2013, Entrevista de Samuel Pinheiro Guimarães a Valéria Nader e Gabriel Brito, Correio da Cidadania em: “Participação do povo sob Chávez foi muito maior que nos demais países da América Latina”
[19] 3/4/2013, “Fiesp Mostra vantagens de se levar indústrias ao Paraguai”, Valor Econômico.

domingo, 2 de junho de 2013

Venezuela comprará mais aviões da Embraer 02/06/2013


CARACAS, 2 Jun (Reuters) - A Venezuela comprará mais aviões da brasileira Embraer para reforçar a frota da linha aérea estatal Conviasa, informou no sábado o presidente do país, Nicolás Maduro.
Maduro recebeu no sábado três aeronaves que foram adquiridas em 2012 por seu predecessor, Hugo Chávez, em Brasília, antes de uma cúpula em que foi formalizada a entrada da Venezuela no Mercosul.
"Nesta primeira etapa são ...até 13. Falamos de 20 com a Embraer. Bom, eu ordeno que inicie negociações com a empresa Embraer para chegar a até 20 aviões para a Conviasa", disse Maduro às autoridades da linha aérea quando aterrisaram os três aviões de modelo ERJ-190.
A Conviasa (Consorcio Venezolano de Industrias Aeronáuticas y Servicio Aéreo) é a linha aérea venezuelana criada em 2004 por Chávez.
"Precisamos ter uma grande indústria aeoronáutica e, em breve, consolidaremos a linha aérea Conviasa como uma das melhores e das mais eficientes, tem que ser assim", disse o presidente em um ato televisionado no aeroporto internacional de Maiquetía, perto de Caracas.
Maduro não deu detalhes da transação com a empresa brasileira.
(Reportagem de Deisy Buitrago)

Exploração do nióbio está sendo analisado pela Câmara 02/06/2013

No R7
Proposta altera regras para exploração de nióbio
O elemento químico é usado principalmente em ligas de aço
Da Agência Câmara
A Câmara analisa proposta para regulamentar a extração e a exploração comercial do nióbio do território brasileiro. O elemento químico é usado principalmente em ligas de aço para a produção de tubos condutores de fluidos, como água e petróleo, a longas distâncias. O Brasil detém 98% das reservas mundiais exploráveis de nióbio no mundo e mais de 90% do total do minério presente na Terra.

Pelo Projeto de Lei 4978/13, do deputado Giovani Cherini (PDT-RS), a extração, a exploração e o beneficiamento do nióbio devem ser feitos por empresas com capital exclusivamente nacional.
Desde a Emenda Constitucional 6, de 1995, mineradoras estrangeiras podem operar por meio de filiais, com exceção de áreas em faixas de fronteira, onde o estrangeiro pode deter até 49% do controle acionário da empresa.
Relatórios
Segundo a proposta, as mineradoras deverão ser cadastradas e autorizadas pelo Ministério de Minas e Energia. A empresa deverá enviar um relatório trimestral ao ministério com a quantidade de minério extraído. Além disso, a cada ano, a empresa exploradora deverá informar para quem vendeu o mineral e qual a quantidade entregue.
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Caso a mineradora também beneficie o nióbio, criando – por exemplo – tubos condutores com fibras do minério, ela deverá informar quanto foi beneficiado.
Todas as empresas que atuam em território nacional e que compram, revendem ou exportam o nióbio terão de informar o governo sobre todos os dados de suas transações e toda a cadeia produtiva.
Quem deixar de cumprir essas regras não poderá mais explorar o minério e terá de pagar multa igual a todo o valor recebido com a venda do nióbio.
Código de Mineração
Atualmente, o Código de Mineração (Decreto-Lei 227/67) permite a exploração de minerais em solo brasileiro por concessão do Ministério de Minas e Energia; por autorização, licença e permissão do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM); ou monopolização, quando a execução é feita, direta ou indiretamente, pelo governo federal.
De acordo com o projeto, o governo definirá uma política de extração e exploração do nióbio com fixação de preços no mercado internacional, fiscalização e controle. “Essa política poderá alavancar em muito o valor pago pelo nosso nióbio, riqueza que somente nós temos”, diz o autor do projeto.
Terras indígenas
A proposta também exige a regulamentação em decreto para a extração e a exploração do nióbio em reserva indígena. A exploração mineral em terras indígenas está em discussão por uma comissão especial da Câmara (PL 1610/96).
Usos do nióbio
Além de ser usado em supercondutores, o nióbio pode ser adotado em caldeiras em usinas termelétricas e em sistemas de propulsão de aviões e foguetes, pois tem um ponto de fusão de 2.468 graus Celsius (°C), mais que o dobro do cobre. O óxido de nióbio é um agente anticorrosivo capaz de suportar a ação de ácidos agressivos, comuns na indústria de petróleo.
As jazidas brasileiras estão presentes em três municípios: 61% em Araxá (MG), 21% em Catalão (GO) e outros 12% em São Gabriel da Cachoeira (AM).
Tramitação
O projeto tramita em caráter conclusivo e será analisado pelas comissões de Minas e Energia; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Morrre idealizador do Proálcool 02/06/2013

Correio Braziliense
Morre ex-professor da UnB José Walter Bautista Vidal
Morreu, por volta das 12h deste sábado (1º/6), aos 78 anos o físico baiano José Walter Bautista Vidal. Internado com complicações renais há cerca de 10 dias no Hospital Santa Luzia, o ex-professor da Universidade de Brasília (UNB) teve falência múltipla dos órgãos. O sepultamento está marcado para às 15h de domingo, na capela 3 do Cemitério Campo da Esperança, em Brasília. Na segunda-feira, o corpo será cremado em uma cerimônia íntima, apenas com familiares.
Idealizador do Programa Nacional do Álcool (Pró-Alcool), Bautista Vidal foi professor das Universidades Federais da Bahia (UFBA) e de Brasília (UNB) e da Estadual de Campinas (Unicamp). Ao lado de Urbano Ernesto Stumpf (1916-1998), foi o idealizador do motor à álcool. Ele deixa quatro filhos e seis netos e dezenas de publicações que compõem um painel dos problemas brasileiros e suas soluções.

Vidal também ocupou várias funções no governo federal. Ele foi secretário de Estado de Ciências e Tecnologia nos governos de Ernesto Geisel e de José Sarney.
O Globo 
Morre, aos 78 anos, José Walter Bautista Vidal
O ex-professor da UNB foi um dos idealizadores do Proálcool, o programa criado pelo governo na década de 1970 para diminuir a dependência do petróleo. Morreu neste sábado, aos 78 anos, em Brasília, o ex-professor da UNB, José Walter Bautista Vidal. Ele foi um dos idealizadores do Proálcool, o programa criado pelo governo na década de 1970 para diminuir a dependência do petróleo. Ele tinha Alzheimer e estava internado havia quase um mês no Hospital Santa Luzia, em Brasília.

Mais de mil pessoas morrem em maio no Iraque 02/06/2013


BAGDÁ, 1 Jun (Reuters) - Mais de mil pessoas foram mortas em maio na violência que assola o Iraque, tornando-se o mês mais mortal desde os conflitos sectários de 2006 a 2007, afirmou a Organização das Nações Unidas (ONU) neste sábado, elevando temores de um retorno à guerra civil.
"Isso é um recorde triste", disse o enviado da ONU em Bagdá, Martin Kobler, em comunicado. "Os líderes políticos iraquianos devem agir imediatamente para acabar com este derramamento de sangue intolerável."
Cerca de 2 mil pessoas foram mortas nos últimos dois meses, já que a Al Qaeda e os insurgentes sunitas, estimulados pela revolta sunita na vizinha Síria e pelo descontentamento sunita no Iraque, buscam reviver a espécie de conflito sectário que matou dezenas de milhares de pessoas entre 2006 e 2007.
Ainda nesta semana, vários atentados atingiram bairros xiitas e sunitas na capital iraquiana Bagdá, onde pelo menos 70 pessoas foram mortas na segunda-feira e 25 na quinta-feira.
O renovado derramamento de sangue reflete o agravamento das tensões entre o governo xiita do Iraque e a minoria sunita, ressentida pelo tratamento recebido desde que Saddam Hussein foi derrubado pela invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003 e mais tarde enforcado.
Braços locais da Al Qaeda e outros grupos armados sunitas estão agora recuperando o terreno perdido durante a longa batalha com as tropas norte-americanas.
Um ataque do Exército iraquiano a um acampamento de manifestantes sunitas em Hawija, em abril, inflamou a violência que matou mais de 700 pessoas naquele mês, segundo uma contagem da ONU. Essa tinha sido a maior taxa mensal de mortes em quase cinco anos, até que foi ultrapassada em maio.
No auge da violência sectária no Iraque, a contagem mensal de mortos superava, por vezes, a cifra de 3 mil.
(Reportagem de Patrick Markey)