sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Síria: Parlamento britânico rejeita ataque; nos EUA, 91% não querem o ataque 30/08/2013

Equerda.Net 

Síria: Cameron recua após derrota humilhante no parlamento

Por treze votos de diferença, o parlamento britânico rejeitou dar luz verde a um ataque à Síria. A Casa Branca diz que pode avançar sozinha, mas Obama está sob pressão para que seja o Congresso a autorizar a escalada do conflito na Síria. E os militares expressam dúvidas sobre o "efeito boomerang" de uma intervenção militar apoiada por apenas 9% dos norte-americanos nas sondagens.
Cameron foi traído pela sua própria bancada, Obama não quer negociar a autorização do Congresso à intervenção militar na Síria. Foto PM britânico/Flickr
"Parece-me evidente que o Parlamento britânico, que reflete o ponto de vista do povo britânico, não quer ver uma ação militar britânica. Eu entendo e o governo irá agir em conformidade", lamentou o primeiro-ministro David Cameron, ao ver derrotada por 285 votos contra 272 a sua proposta para participar num ataque militar à Síria, em aliança com os EUA e a França.
Para além de uma humilhação sem precedentes para Cameron, a votação revelou-se uma surpresa, já que pouco antes também fora chumbada - mas por 114 votos de diferença - uma emenda proposta pelos trabalhistas. A emenda pedia "provas convincentes" acerca dos ataques com armas químicas relatados na semana passada, e que têm sido alvo de investigação por uma equipa das Nações Unidas, antes de avançar para um ataque militar contra Damasco. 
A derrota de Cameron ficou a dever-se aos deputados da sua bancada, já que a dos trabalhistas contava com cerca de trinta lugares vazios. Segundo fontes parlamentares trabalhistas, 30 deputados conservadores e 11 liberais-democratas votaram contra a proposta do primeiro-ministro que apoiam. E abstiveram-se na votação 14 conservadores e 13 liberais-democratas. 
 
Obama sob pressão de congressistas e militares
Na Casa Branca, a reação foi lida pela porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, indicando que "o processo de decisão do presidente Obama será conduzido de acordo com os melhores  interesses dos EUA" e que continuarão a consultar o aliado britânico, apesar de Londres ter decidido não participar na operação militar conjunta.  
Mas a pressão para Obama não avançar com os ataques sem autorização dos Congresso aumentou esta quarta-feira, com uma carta subscrita por 98 congressistas republicanos e 18 democratas. "Mandar os nossos militares para a Síria quando não existe nenhuma ameaça direta aos EUA sem autorização prévia do Congresso violaria a separação de poderes que é claramente delineada na Constituição", diz a carta dos congressistas a Obama.
Numa resposta às críticas, Obama optou por enviar os responsáveis pelos negócios estrangeiros, defesa e segurança nacional (John Kerry, Chuck Hagel e Susan Rice), juntamente com responsáveis do Pentágono e dos serviços secretos, para darem explicações aos dirigentes das bancadas republicana e democrata. Para além da carta dos congressistas, os líderes da Comissão de Informações do Congresso queixaram-se de não estarem a ser devidamente informados dos planos de Obama. Segundo a Reuters, até agora as conversas têm decorrido por telefone em linhas não seguras, impedindo o conhecimento dos detalhes de toda a situação. 
Na última semana, várias vozes de constitucionalistas questionaram a legalidade da intervenção, já que apenas o Congresso tem o poder de declarar uma guerra. E tem sido lembrada a declaração de John Kerry na sessão de avaliação antes de tomar posse à frente da diplomacia na administração Obama. "Uma resolução das Nações Unidas é um ingrediente necessário para haver uma base legal que permita agir militarmente em caso de emergência", declarou Kerry em janeiro, quando substituiu Hillary Clinton.
Mas as dúvidas sobre a intervenção também alastram entre os militares, a começar pela liderança. O chefe de Estado Maior das Forças Armadas e principal conselheiro militar da Casa Branca lançou a dúvida sobre as consequências de um ataque. "Aprendemos nos últimos dez anos que não basta alterar o balanço do poder militar sem pensar cuidadosamente no que é preciso para preservar um Estado que funcione" , afirmou o general Martin Dempsey no início desta semana. 
"Temos de prever e estarmos preparados para as consequências indesejáveis da nossa ação. Se as instituições do regime colapsam e não há uma oposição viável, podemos inadvertidamente reforçar os extremistas ou até libertar as mesmas armas químicas que queremos controlar", alertou o líder militar dos EUA. Uma leitura que é partilhada por outros militares e especialistas em relações internacionais, ao sublinharem o facto de que o protesto contra Bashar al-Assad começou por ser liderado por militantes pró-democracia, mas que hoje em dia o protagonismo vai para os extremistas islâmicos que vêm nos EUA e em Israel os principais inimigos.
 
Norte-americanos não querem guerra na Síria, mesmo que haja ataques com armas químicas
A par das dúvidas sobre o sucesso dos bombardeamentos para a estratégia dos EUA na região, Obama tem também de enfrentar uma opinião pública que é desfavorável à intervenção. Uma sondagem da Reuters/Ipsos feita entre 19 e 23 de agosto, já com as notícias sobre ataques de armas químicas atribuídos ao regime de Assad, mostrou que apenas 9% dos inquiridos apoiavam a intervenção. 
Questionados sobre a eventualidade de se provar que o regime usou armas químicas contra civis, o número de apoiantes do ataque à Síria subiu para 25%, com 46% a dizer que mesmo assim não concordam com uma ação militar. Comparada com a mesma sondagem feita dez dias antes, o resultado mostra o declínio no apoio à guerra, mesmo com o recurso a armas químicas, o argumento usado por Obama para intervir militarmente na Síria.

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