sexta-feira, 18 de maio de 2012

Quem é quem no banquete da OTAN 18/05/2012


17/5/2012, M K Bhadrakumar*,  Asia Times Online
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu


Nota do pessoal da Vila Vudu e da redecastorphoto
Hoje, 17/5/2012, um influente blog de soldados veteranos norte-americanos sobreviventes das guerras da OTAN-EUA, publica editorial intitulado Veterans For Peace exigem o fim da OTAN, onde se lê:
“Depois de fazer guerras de agressão na Yugoslávia, no Iraque, no Afeganistão e na Líbia, a OTAN permanece no Afeganistão, ilegalmente e imoralmente, para nenhum objetivo conhecido. O povo dos EUA, das demais nações que fornecem soldados à OTAN e do próprio Afeganistão, exige a saída da OTAN do Afeganistão, enquanto os presidentes Obama e Karzai, contra o desejo manifesto dos povos, trabalham para manter soldados dos EUA-OTAN no Afeganistão por, no mínimo, os próximos 12 anos e meio. (...)
A matança e a destruição da Líbia, pela qual EUA-OTAN são responsáveis, foram ilegais, imorais e contraproducentes, tanto quanto o é a agressão da OTAN ao Afeganistão. As guerras da OTAN não levaram democracia, paz ou direitos humanos a lugar algum do planeta. (...) A Líbia tampouco é modelo para futuras ações da OTAN.

Não há nem pode haver modelo para futuras ações da OTAN. A OTAN perdeu sua razão de ser.
Os Veterans For Peace unem-se aos nossos irmãos e irmãs na Europa e em todo o mundo, que se mobilizam em manifestações pacíficas para exigir o imediato desmonte da OTAN.”
No mesmo dia, o jornal O Estado de S.Paulo publica, requentado do New York Times, artigo do secretário-geral da OTAN, É imperativo armar a OTAN, no qual o muito sinistro Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da OTAN, pede dinheiro ao mundo para armar ainda mais a OTAN.
Em linguajar cifrado-sinistro, para engambelamento da opinião pública – que o sinistro O Estado de S.Paulo endossa e subscreve, ao requentar e repetir o que escreve aquele (mais um!) sinistro colunista do sinistro Estadão – Rasmussen fala da necessidade de “equipar adequadamente a OTAN”.
Assim se veem, bem claramente, os dois lados: de um lado, a OTAN-EUA e seus veículos de jornalismo de repetição pelo planeta, a pregar guerras e mais guerras. De outro lado, os cidadãos, sobreviventes precários de todas as guerras, que se organizam para resistir à fúria desse aparelho bélico-jornalístico.
Como tradutores militantes, nos alinhamos firmemente ao lado dos Veterans for Peace, contra a OTAN, contra as guerras dos EUA em todo o mundo e contra o jornalismo obsceno que desgraça o Brasil-2012.
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A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ainda está imprimindo os cartões de identificação para sua Conferência em Chicago no próximo domingo. Imprimiram um cartão para o presidente do Paquistão Asif Zardari na 4ª-feira. O Paquistão tornou-se “elegível”, depois de dar sinais de que baixará a crista e reabrirá as rotas de passagem para os comboios militares que seguem para o Afeganistão – apesar de os EUA continuarem obcecadamente a recusar-se a pedir desculpas formais pelo massacre de soldados paquistaneses em novembro e a suspender os ataques mortais, com aviões-robôs, os drones, contra aldeias paquistanesas.
O Paquistão receberá da OTAN US$1 milhão/dia, à guisa de taxa de pedágio. E é bom negócio? Um convite para o banquete da OTAN em Chicago, em troca de reabria as rotas de passagem? Os principais partidos da oposição paquistaneses entendem que não. Mas... O partido governante é sempre quem decide onde está o melhor negócio. Além do mais, os militares paquistaneses querem que assim se faça. E assim será feito.
Zardari ainda não confirmou presença, mas só para fazer-se mais esperado. Mostrar-se numa festança daquelas é questão de prestígio nacional. A OTAN não convida Zé ninguéns: nem o presidente da China nem o presidente da Índia foram convidados àquele congresso de bruxas em Chicago. (A Rússia foi sondada, mas respondeu niet [em russo ‘Não!”], mas essa é outra história complicada; e OTAN-EUA sonharam com convidar Israel, mas a Turquia bateu pé e disse haver [em turco: ‘Não e não!”]).
A lista de convidados da OTAN mostra a ingenuidade (ou a arrogância) do ocidente e é como um mapa do caminho das estratégias globais ocidentais para o século 21. Que cara tem a tal lista de convidados? O mais espantoso é que, mais ou menos como no Inferno de Dante, há “círculos”, “estações”.
No núcleo mais hardcore, estão os 28 países-membros da OTAN. O círculo seguinte é dos 13 países considerados “parceiros globais” da OTAN – Japão, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia, do Pacífico Asiático; Qatar, Emirados Árabes Unidos e Marrocos, do Oriente Médio; a Geórgia, da Eurásia; e Áustria, Suíça, Suécia e Finlândia, do velho bom quintal europeu.
Esse é o crème de la creme dos aliados da OTAN. As mais luminosas omissões são a Indonésia e as Filipinas (essa última, apesar de “estado-de-frente” no Pacífico Asiático e desejosa de espetar o dragão chinês), a Arábia Saudita (apesar de ser a bomba de gasolina n.1 das economias ocidentais há bem mais de meio século), o Egito, a África do Sul, o México, o Brasil e a Argentina (que são prima-donas nas respectivas regiões). No geral, parece que a OTAN sente-se meio desconfortável com o Grupo dos 20, que luta para constituir-se.
Jogo de “amor-bandido”
Marchando avante, há outro círculo mais externo formado dos países que são partícipes ou colaboradores na guerra da OTAN no Afeganistão. São os verdadeiros “VIPs” (ou “heróis”, dependendo do ponto de vista de cada um sobre a sangrenta guerra afegã), porque põe a cara a tapa e atraíram a atenção da al-Qaeda para resgatar a OTAN do atoleiro afegão. São (em ordem alfabética, não em termos das respectivas quotas de suor e lágrimas): o Azerbaijão, a Armênia, o Bahrain, El Salvador, a Irlanda, Montenegro, a Malásia, a Mongólia, Cingapura, a Ucrânia e Tonga.
Detalhe sensacional nisso tudo é que, se algum dia alguém vencer a guerra do Afeganistão, o mérito pode ser todo de Tonga e sua contribuição, mas fato é fato.
A lista está incompleta. Esse círculo tem um subcírculo, em cujo centro está o Afeganistão (principal tópico de discussão da Conferência da OTAN), cercado por seus vizinhos da Ásia Central. Parece que a Rússia foi acomodada sob essa subchefia. Zardari, certamente, encaixa-se nesse nicho.
A Rússia designou um simples chefe do comitê afegão do Ministério de Relações Exteriores em Moscou para declarar alto e claro que está ressentida por ter sido excluída das reuniões chaves da OTAN sobre a condução da guerra afegã, que acontecem regularmente, faça chuva faça sol, em Bruxelas. Mas também é ressentimento “nuançado”. A Rússia não tem qualquer objeção à guerra da OTAN no Afeganistão e é, até, ardorosamente favorável. Mas a Rússia ressente-se, sim, de a OTAN monopolizar a guerra; a guerra deveria ser “democratizada”.
Os estados da Ásia Central designaram os ministros de Relações Exteriores, porque, tecnicamente, são membros também da aliança rival, chamada “a OTAN do Leste” – a Organização do Tratado de Segurança Coletiva [ing. Collective Security Treaty Organization (CSTO)].
Essa CSTO está atada num jogo de “amor-bandido” com a OTAN: é rival da OTAN na disputa pelo título de principal aliança militar no espaço pós-soviético, mas também sonha com que a OTAN a reconheça como igual, para que, assim, a própria CSTO possa convencer-se de que, sim, existe (reconhecimento o qual, como se pode bem imaginar, a OTAN lhe recusa, obediente aos desígnios de Washington, porque os EUA preferem tratar com as ex-repúblicas soviéticas individualmente, não como parceiras ‘júnior’ de Moscou). 
As dificuldades da aliança CSTO são quase imagem especular das da Rússia – anseia por teto e cama quente no lar europeu comum, mas é insistentemente mantida à chuva, condenada a espiar de longe, enquanto os EUA continuam a engajar-se seletivamente nas áreas que interessam às estratégias norte-americanas. (É bem possível que a OTAN também, algum dia, engaje seletivamente a CSTO, para, por exemplo, caçar traficantes de drogas na Ásia Central, que muito atrapalham a economia afegã). A aliança CSTO é formada de Armênia, Belarus, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão.
Mas, também é verdade que Moscou sente-se pouco segura por a OTAN ter convidado líderes da Ásia Central ao banquete em Chicago. Desconfia das intenções da OTAN na Ásia Central, sobretudo no contexto do possível estabelecimento, ali, de bases militares dos EUA.
Afinal, um dos objetivos da conferência de Chicago é avançar na construção da “estratégia inteligente” [ing. “smart strategy”] da aliança, aprovada na Conferência de Lisboa, em 2010, para projetar a OTAN como a única verdadeira organização de segurança global que poderia eventualmente operar mesmo sem mandado da ONU nos “pontos quentes” [orig.“hot spots”] do mundo.
Moscou preocupa-se, ante a evidência de que a OTAN já está pegando o gosto por forçar “mudança de regime” em terras estrangeiras, como o comprova a guerra contra a Líbia – e também no caso de as tendências perversas que se veem na Síria levarem a idêntico resultado.
Além do mais, a OTAN está lançando iscas na direção de estados da Ásia Central, sob a forma de ofertas cada dia mais irresistíveis. A dura realidade é que os regimes da Ásia Central têm visto aumentar seus interesses na guerra afegã, com a OTAN gerando generosamente contratos lucrativos para fornecimento de bens e serviços, que chegam, abundantes, a empresas de propriedade das elites regionais.
Os EUA pagam quantia interessante ao Quirguistão, pelo aluguel da base aérea Manas. Agora, fala-se que parte das armas e equipamentos usados no Afeganistão podem ser doados a países da Ásia Central, ao longo da retirada, até 2014.
Não há dúvida de que grossas mamatas, sob direção da OTAN, alastram-se pelas estepes da Ásia Central e muito incomodam a Rússia. Seja como for, é interessante: os estados da Ásia Central decidiram, coletivamente, que seus presidentes manter-se-ão bem longe da Conferência da OTAN e da deliciosa Chicago, cidade dos ventos. Mas também se pode supor que não passe de supremo ato de autonegação, nos líderes da Ásia Central, em deferência à sensibilidade de Moscou.
Pergunta ao chef
Verdade é que um país chave, vizinho do Afeganistão, foi escrupulosamente mantido longe da conferência da OTAN, embora ainda mantenha considerável capacidade para influenciar a maré da guerra afegã: o Irã. 
Desperdiçou-se grande oportunidade ao não engajar construtivamente o Irã. Mas o presidente Barack Obama, dos EUA, decidiu que a hora não está para jogadas de risco.
O presidente Mahmud Ahmadinejad é personalidade mercurial, muitíssimo carismático e poderia acabar roubando o show que Obama cuidadosamente, dolorosamente coreografou para proclamar ao mundo que é líder de estatura planetária. Seria arriscado demais, para Obama, sim, num ano eleitoral carregado de percalços. E o Republicano Mitt Romney ajudado por todo o lobby israelense lhe criariam terríveis dificuldades, obrigando-o a explicar tanta “softness” em relação ao Irã.
Outro dos círculos em que se divide a relação de convidados da OTAN é o dos quatro candidatos que esperam na antessala, pela inclusão como membros da aliança – a Bósnia-Herzegovina, a Geórgia, Montenegro e Macedônia.
A Geórgia ostenta a medalha de ser o único estado que figura em três círculos: é aliado global da OTAN, é parceiro na guerra afegã e é elegível ao posto de membro pleno. A mensagem cifrada na atenção extraordinária dedicada à Geórgia não passaria despercebida em Moscou. Não por acaso, os primeiros governantes “estrangeiros” que o presidente Vladimir Putin recebeu depois de eleito vinham de Abecásia e Ossétia do Sul, regiões da Geórgia.
Não implica dizer que Moscou tenha qualquer apreensão quanto à Geórgia ser admitida como membro pleno da OTAN. Putin tem parceiros europeus importantes, como Alemanha, França e Itália, para garantir que a OTAN não entre em confronto direto com a Rússia. Putin está satisfeito com a saída de Nicolas Sarkozy e a emergência do governo socialista em Paris.
E Obama também já sabe que a prioridade de seu segundo período de trabalho no Salão Oval – se chegar lá – terá de ser reiniciar o reinício das relações entre EUA e Rússia, e conseguir que fazer da parceria Rússia-EUA instrumento previsível e maximamente útil para as estratégias globais dos EUA – sobretudo ante o desafio muito complexo que vem da China.
Não há dúvidas de que a lista de convidados da OTAN oferece bom quadro do que os marxistas-leninistas chamariam “a correlação de forças” na política internacional hoje. O que aqui se lê não é o quadro completo da política global, mas é mais da metade do cenário num panorama muito fluido.
Permitam-me concluir com um raro toque de húbris, e perguntar: o que é uma conferência da OTAN, quando China e Índia estão ambas cuidando da própria vida e arando as próprias searas independentes?
No mínimo, Bruxelas deveria ter incluído uma categoria de convidados chamados “OTAN + BRICS”. Os países BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – com certeza não são menos importantes que a União Europeia, para a configuração do mundo de amanhã. Por que não foram convidados, é pergunta que o grand chef do banquete de Chicago – Obama – terá de responder. 
MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.




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