domingo, 30 de dezembro de 2012

Outra vez a Comuna de Paris 30/12/2012



13/11/2012, Juliet Jacques, NewStateman (com intervenções)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barricadas frente à Madeleine, na Comuna de Paris. Imagem via WikiCommon
Epígrafe acrescentada pelo pessoal da Vila Vudu:
Tese 8: “Os teóricos que reconstituem a história deste movimento, colocando-se do ponto de vista omnisciente de Deus que caracterizava o romance clássico, mostram sem dificuldade que a Comuna estaria objetivamente condenada, que não teria superação possível. Mas para os que viveram o acontecimento, a superação estava ali”.
Tese 13: “A guerra social de que a Comuna constitui um momento continua sempre (por muito que tenham mudado algumas condições superficiais). Sobre o trabalho de “tornar conscientes as tendências inconscientes da Comuna” (Engels) ainda não foi dita a última palavra”.
Guy Debord em:14 Teses sobre a Comuna de Paris”, Internationale Situationiste, n. 7, Abril de 1962
Émile Zola
Apesar do curto período de existência, de março a maio de 1871, a Comuna de Paris inspirou um romance de Émile Zola (La Débâcle, 1892), filmes de Grigori Kozintsev e Peter Watkins, e várias análises propostas por pensadores socialistas, a começar por A Guerra Civil na França, de Karl Marx, sobre o que o curto sucesso e o estrondoso fracasso da Comuna têm a ensinar aos muitos, sobre como reorganizar a sociedade.
De fato, a única correção que Marx e Engels fizeram ao Manifesto Comunista brotou de lição da Comuna, a qual, escreveram eles, demostrara que “a classe trabalhadora não pode apenas ocupar a máquina já existente do Estado para usá-la para seus próprios objetivos”.
Prosper-Olivier Lissagaray
A narrativa da Comuna tornou-se profundamente ideologizada, depois que as tropas da 3ª República francesa a esmagaram, ainda furiosas pela derrota da França na guerra franco-prussiana e pelo acordo punitivo de janeiro de 1871.
Agora, já praticamente em 2013, a editora Verso volta a editar a seminal História da Comuna de Paris (em português)  do communard Prosper-Olivier Lissagaray (1838-1901), publicada em francês pela primeira vez em 1876, com Lissagaray ainda exilado na Bélgica, e traduzida ao inglês por sua mulher, Eleonora Marx [filha de Marx].
Com essa história detalhadíssima, Lissagaray visava a combater “as mentiras e calúnias burguesas” que se seguiram à supressão da Comuna, para extrair lições e demarcar os fatos para historiadores futuros.
Eleonora Marx
O que os leitores contemporâneos aprendem da história de Lissagaray?
A palavra “comuna” sugere “comunismo”, mas já era usada para designar o conselho da cidade, como autoridade local autônoma. A denominação tem raízes na Revolução Francesa, e já houvera uma comuna de Paris entre 1789 e 1795, a qual, sob controle dos jacobinos, recusara-se a obedecer ordens do governo central depois de 1792. A Comuna de 1871 aconteceu depois de Paris ter sido sitiada pelos prussianos, cerco que começou em setembro de 1870, depois do colapso do Segundo Império de Napoleão III Preparando para o ataque iminente, a Guarda Nacional Francesa foi aberta para a classe trabalhadora parisiense, que elegeu seus próprios líderes do Comitê Central da Guarda. Muitos desses líderes eram radicais, republicanos ou socialistas jacobinos, sobretudo no norte, os mesmos que, adiante, tornaram-se líderes da Comuna.
Essa guarda parisiense destinava-se a defender a cidade contra a invasão prussiana e pela restauração da monarquia, sobretudo depois que, nas eleições para a Assembleia Nacional, em fevereiro de 1871, os monarquistas perderam a maioria. Cada dia mais radical, a Guarda Nacional parisiense acumulou armamento pesado; até que, no dia 18/3/1871, Adolphe Thiers, eleito recentemente “Autoridade Executiva” do novo governo, e temeroso das consequências de a municipalidade em Paris estar tão pesadamente armada, ordenou que os soldados confiscassem toda a munição que havia em Montmartre. Os parisienses revoltaram-se; dois generais foram assassinados; Thiers recolheu-se, com todo o gabinete administrativo, para o Palácio de Versailles, deixando um vácuo de poder, que foi rapidamente preenchido pelo Comitê Central da Guarda Nacional parisiense.
A Comuna nasceu sitiada, o que tornou absolutamente urgente e necessário distribuir comida, dinheiro e armas entre os communards; nasceu também constituída de trabalhadores; e a constituição operária do Comitê Central da Comuna de Paris tornou-o excepcionalmente interessante para Marx e seus seguidores. Embora separasse estado e igreja; tenha cancelado aluguéis a pagar durante o sítio; tenha abolido o trabalho noturno nas padarias e todos os tipos de juros sobre dívidas; e admitisse que os operários ocupassem lojas e fábricas abandonadas, a Comuna nunca foi formalmente socialista – as ideias de Marx ainda não haviam penetrado na esquerda francesa; e, em 1871, os teóricos utopistas, como Charles Fourier, já haviam saído de moda.
Louis-Auguste Blanqui
Louis-Auguste Blanqui – que tentara assumir o poder em outubro de 1870; que viu seu projeto sobreviver apenas 12 horas; e que foi preso um dia antes de as tropas chegarem a Montmartre para desarmar a guarnição local – era, então, ainda, o pensador mais influente. Por isso os Communards fizeram várias tentativas para libertá-lo, tentando uma troca de prisioneiros: Blanqui, em troca de padres que os Communards tomavam como reféns. Thiers rejeitou todas as propostas.
Mas eram poucos, entre os Communards, os que partilhavam o desejo blanquista de implantar uma ditadura do proletariado; a maioria tendia a eleger membros para o Comitê e o novo Conselho Executivo. Para Lissagaray, o principal problema parecia ser a falta de ideologia e de organização. As eleições elegeram radicais, moderados e conservadores, e não havia qualquer linha partidária por trás da atividade da Comuna; os líderes consumiam tempo precioso em infindáveis discussões, quando o mais urgente seria agir contra a mobilização dos soldados de Thiers em Versailles.
Lissagaray aponta, logo à primeira página, para a divisão insuperável entre a esquerda radical e a esquerda parlamentar (a esquerda parlamentar já aliada, de fato, a Thiers). A desunião tornar-se-ia afinal pública, entre o Comitê Central e o Conselho Executivo da Comuna; separação provocada, pelo menos em parte, por o Comitê não se decidir a assumir o controle sobre Banco da França.
“Naqueles cofres (...) há 4,6 milhões de francos” – Lissagaray lamenta – “mas as chaves estão em Versailles; e, dada a tendência do movimento para conciliar-se com os prefeitos [delegados Varlin e Jourde, do Comitê Central da Comuna], ninguém se atreve a arrombar os ferrolhos e fechaduras”.
Essa decisão tornou-se a mais amplamente criticada em todas as histórias que se escreveram depois. Foi bem claramente a decisão, considerada isoladamente, que Lissagaray mais profundamente lamenta. Escreveu que o governo da Comuna optou por “submeter-se ao Banco da França”, opção que potencializou o fracasso mais amplo de só fazer aprovar “legislação insignificante (...), sem plano militar, sem programa (...), deixando-se arrastar em discussões em que nada se decide e a partir das quais nada se faz”.
O caos assim gerado – que se percebe no tom de absoluta urgência que há no texto de Lissagaray e, até, na dificuldade que o leitor encontrará, ainda hoje, para compreender e acompanhar as rápidas modificações na estrutura da Comuna – levou à ditadura.
Em pouco tempo, um novo Comitê de Segurança Pública sobrepujou o Conselho, que cometeu o erro de não admitir que o povo participasse de suas reuniões, o que gerou a imagem de que seria paranoico e antidemocrático; e assumiu a responsabilidade pela defesa de Paris.
Daí em diante, a Comuna ficou à mercê dos líderes militares, cuja negligência e insuficiente competência tática – sobretudo ao instalar barricadas, já tornadas inúteis depois que o Barão Haussmann reformara Paris nos anos 1860s – a condenaram à derrota.
A retaliação foi violenta: 3.000 parisienses mortos ou feridos nas batalhas de maio de 1871; e Lissagaray estima que cerca de 20 mil morreram até meados de junho – três mil a mais do que admitidos pela justiça militar do governo. Muitos mais foram presos, na França e nas colônias; só foram anistiados em julho de 1880.
Guy Debord
Os Situacionistas Guy Debord, Attila Kotányi e Raoul Vaneigem, em suas Teses sobre a Comuna de Paris  publicadas em março de 1962, procuraram separar a experiência da Comuna, de tentativas anteriores, para inferir dela uma teoria de como poderia funcionar uma ditadura do proletariado.
Escreveram que “A Comuna de Paris foi vencida menos pela força das armas que pela força do hábito. O exemplo prático mais escandaloso foi a recusa em recorrer ao canhão para tomar o Banco de França, quando o dinheiro fazia tanta falta. Enquanto durou o poder da Comuna, a banca permaneceu como um enclave em Paris, defendida por algumas espingardas e pelo mito da propriedade e do roubo. Os restantes hábitos ideológicos foram desastrosos sob todos os pontos de vista (a ressurreição do jacobinismo, a estratégia derrotista das barricadas em memória de 48, etc.)” (Tese n. 8).
Escreveram que “Há que retomar o estudo do movimento operário clássico de uma forma desenfeudada e em primeiro lugar desenfeudada das diversas classes de herdeiros políticos ou pseudo-teóricos, pois não possuem mais que a herança do seu fracasso. Os êxitos aparentes deste movimento são os seus fracassos fundamentais (o reformismo ou a instalação no poder de uma burocracia estatal) e os seus fracassos (a Comuna ou a revolta das Astúrias) são até agora os seus êxitos abertos, para nós e para o futuro”. (Tese 1).
Talvez cada geração, posta ante diferentes crises do capitalismo, que as gerações anteriores não conheceram, identifique diferentes lições na Comuna (...) 

Nenhum comentário:

Postar um comentário