Diante
da escassez de mão de obra em sua região, a cidade alemã de Schwabisch
Hall decidiu lançar uma campanha para atrair trabalhadores de países
afetados pela crise na Europa. Mas nunca imaginou que o resultado seria
uma inundação de currículos chegando à prefeitura e candidatos tomando a
decisão de viajar mais de mil quilômetros para entregar em mãos suas
fichas para disputar um posto de trabalho.O
que ocorreu na cidade próxima à Stuttgart é apenas um espelho de um
novo fenômeno europeu. Ilha de estabilidade dentro de uma Europa em
convulsão, a Alemanha se transformou num país refúgio. Milhões de
europeus sem emprego se mudaram para as cidades alemãs, enquanto bilhões
de euros entraram nos cofres do país em busca de segurança.
A Alemanha vive um momento de praticamente pleno emprego, com apenas
5,6% da população sem trabalho e com a previsão de que, em algumas
regiões, a taxa fique abaixo de 5% ao final do ano. O número se
contrasta com os 24% de desempregados na Espanha, 20% na Grécia e 16% em
Portugal. Diante da queda da taxa de natalidade, o resultado tem sido a
falta de mão de obra em vários setores. As estimativas são de que o
país não consegue preencher vagas oferecidas para engenheiros e que,
mesmo com a imigração, existe um déficit de 30 mil engenheiros na
Alemanha.Segundo o Escritório Federal de Estatística da Alemanha, o país
viveu em 2011 a maior queda no número de nascimentos. Em todo o ano,
foram apenas 663 mil
partos, 2,2% menos que em 2010. A taxa é ainda a mais baixa desde 1946,
quando o fim da Segunda Guerra Mundial abriu uma nova fase na sociedade
alemã. O número é ainda metade dos nascimentos registrados em 1964, no
auge do ‘baby-boom’ europeu, e nunca a diferença entre mortes e
nascimentos foi tão elevada.Segundo a Destatis - a agência de
estatísticas - a população de 82 milhões de habitantes apenas não
encolheu graças à chegada de 279 mil imigrantes, o maior número em mais
de dez anos. O resultado foi um crescimento líquido de 100 mil pessoas
no ano na população alemã, algo que a indústria comemora.Algo similar já
havia ocorrido após a Segunda Guerra Mundial,
quando milhares de portugueses e espanhóis deixaram seus países
empobrecidos para ajudar a reconstruir a Alemanha. Dessa vez, o fluxo
tem assustado algumas cidades. Em Schwabisch Hall, com 180 mil
habitantes, apenas 3% da população está desempregada e 2,5 mil postos de
trabalho não conseguem ser preenchidos.Em março, bastou uma matéria de
um jornal português sobre a campanha para que a prefeitura local
recebesse, em quatro dias, mais de 18 mil currículos
de portugueses, buscando trabalho. A prefeitura também foi obrigada a
fretar um avião entre Madri e Stuttgart para levar 100 engenheiros
espanhóis para a última fase de testes. No início do ano, vários deles
já estavam trabalhando.Empresas alemãs, desesperadas por trabalhadores,
estão contratando ainda os serviços da agência Adecco para recrutar
imigrantes especializados. A Adecco foi justamente buscar na Espanha
cerca de 50 engenheiros, oferecendo aulas de alemão e posições em
empresas de ponta no novo "El Dorado", aMartin Friedrich, gerente da
escola de idiomas Academia Suarez, conta que empresas alemãs o tem
procurado para fechar acordos para dar aulas de alemão a espanhóis,
gregos e portugueses. "As empresas estão dispostas a pagar pelas aulas. O
que querem são trabalhadores", disse.No centro de Frankfurt, sua escola
que se dedicava principalmente
ao ensino do espanhol, foi obrigada a abrir cursos de alemão. Ao abrir
vagas para professores, outra surpresa: passaram a receber pedidos de
trabalho de professores no interior da Espanha. "A crise é muito
profunda lá e as pessoas estão desesperadas", comentou.O padre
brasileiro André Bergmann também conta que tem
visto um incremento substancial do número de portugueses que vem até
ele em busca de conselhos e orientação para se mudar para a Alemanha. O
padre comanda a Comissão Católica de Língua Portuguesa em Frankfurt.
"Aqui não há uma crise", admitiu.No hospital universitário da cidade, a
direção médica decidiu
contratar 30 enfermeiras portuguesas, diante da falta de pessoas
especializadas.Sem esses estrangeiros, a Alemanha já prevê que poderá
ter sérios gargalos para sua economia na próxima década. Até 2060, o
país poderia ter 12 milhões de pessoas a menos. Para Steffen Kröhnert,
do Instituto de Berlim para População e Desenvolvimento, em 2050, a
Alemanha poderá sofrer uma redução de 30% de sua mão de obra.
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